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Twitcam

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O assunto dos últimos dias é o twitcam. Não a ferramenta em si, mas casos diretamente relacionados a ela. É provável que todos conheçam a polêmica gerada pela exposição de um casal de menores de Porto Alegre para uma plateia de milhares de pessoas, ou a dos “meninos da vila” seminus, xingando torcedores. Como as questões relacionadas ao “alvinegro praiano” não me interessam, vou me ater ao primeiro caso.
Um garoto de 16 anos e uma menina de 14 anos fazem um show erótico numa noite de domingo, prometendo maior ousadia quanto maior fosse o número de expectadores. Os participantes espalham a notícia rapidamente e os jovens cumprem o trato. O vídeo gravado é disponibilizado em sites de download e a repercussão torna-se provavelmente muito maior do que eles imaginavam. Muitos podem ser responsabilizados pela divulgação e download do vídeo (o ECA trata da questão), o que iniciará uma onda de discos rígidos destruídos, “a grande queima de HDs”, segundo meu amigo @gravz.
Mas vou deixar as piadas e as questões legais de lado. Em primeiro lugar, vejo surgir a natural e enorme indignação da sociedade. Cansei de ouvir nos últimos dias que “a juventude está perdida” e que “a internet precisa de mais controle e regulamentação”. Amigos perguntam, com razão, o que aconteceu com “essas crianças” para que elas perdessem as noções de privacidade e intimidade, e como podem fazer algo tão absurdo. Minha resposta nesta hora costuma deixá-los de olhos arregalados: não só não há nada de absurdo no ato em si como esse casal foi absolutamente coerente, respondendo da maneira possível ao discurso que dá mostra do que a sociedade espera deles.
escrevi aqui sobre um determinado lugar ocupado pelo adolescente em nossa trama social, e de que forma eles percebem os discursos (principalmente implícitos) contidos nela. Este caso específico é uma boa oportunidade de entendermos o que está envolvido não só neste ato, mas na própria existência de ferramentas como o twitcam, e como nos relacionamentos com elas.
As tais redes sociais vêm sendo vendidas (o termo é exatamente esse) como um novo paradigma de espaço para convivência e, principalmente, geração e compartilhamento de “conteúdo” e consequente democratização do conhecimento. Acho muito bonito e tenho esperanças de que isso acabe acontecendo mesmo, mas a coisa toda é bem mais complexa. Participamos de redes sociais que mostram ao mundo as músicas que ouvimos e as séries que assistimos; as fotos do fim de semana com os amigos, os filmes que vemos e os restaurantes em que comemos, sem falar nas cidades que visitamos. Existem sites em que as pessoas podem dizer anonimamente o que pensam de você ou te fazerem perguntas quaisquer, sem falar naquele que avisa ao mundo quando você entra na lavanderia. Há algo de imperativo aí, diferente do que costumava ser. Em lugar do “ter para ser”, temos o “mostre para ser”. Em nossa sociedade, hoje, qualquer possibilidade de gozo e, num sentido mais amplo, de existência, está condicionada e mediada pelo verbo mostrar.
Nós nos beneficiamos com isso? Talvez. Alguns encontram lugar nesse ambiente de espetacularização do sujeito, outros se tornam cada vez mais alheios e solitários. Enfim. Do ponto de vista individual não há muito a dizer, mas do ponto de vista coletivo, vale perguntar quem se beneficia da visibilidade total. Penso aqui no processo de reificação do sujeito. O indivíduo superexposto perde sua condição subjetiva, ainda que o discurso seja de valorização do “eu”, com enorme apelo narcísico. Como mercadorias, ganhamos um índice de valor atrelado ao que conseguimos exibir ao mundo, e a moeda que dá conta deste valor, que permite medi-lo, é o avatar. No momento em que conta apenas o que é visto, a imagem de alguém num site, acompanhada de seu número de expectadores, parece ser a maneira mais tangível de quantificar seu valor e de delimitar sua existência. E quem se apropria deste “capital social”, como não podia deixar de ser, é a própria ordem comercial e econômica. Nosso perfil em redes sociais, antes de qualquer coisa, é moeda. Analistas de “social media”, salvo poucas exceções, estão muito mais preocupados com o potencial de troca, de capitalização das redes, do que com seu potencial “gerador de conteúdo e conhecimento”. Assim como os jovens da twitcam, eles estão respondendo a um apelo.
Voltando a este casal de adolescentes, penso em indivíduos que estão se utilizando das armas que possuem para fazer parte deste sistema. Ora, se o reconhecimento e a própria existência estão condicionados à participação em uma cadeia de imagens, é natural que o adolescente faça o que for possível para estar ali. O preço de não existir, de não ser visto, é muito mais alto do que o de ter seu avatar transformado em mercadoria ou de ver sua privacidade perdida. Afinal, não há qualquer valor atrelado à privacidade.
Mas a “arma” precisa ser o sexo, o desejo? Bem, não sejamos hipócritas: ainda que exista toda a moralidade que prega que o jovem deve ser protegido de seu próprio desejo (nem os adultos sabem se reconhecer desejantes), principalmente no caso das meninas (machismo), o corpo sempre foi um dos primeiros passaportes de acesso ao mundo “adulto”. O sexo mostrado ao vivo na câmera, de certa forma, é uma versão atualizada e mais explícita do baile de debutantes. Simplesmente outra maneira de mostrar ao mundo que “a menina já ficou mocinha”.
Não fico chocado ou indignado, não fico preocupado com nossas futuras gerações por culpa do que estes dois fizeram. Ainda que eu entenda a indignação, a exploração por parte da mídia e a mobilização de setores pedindo mais controle da internet (para variar), minha preocupação real é com este discurso que chama a todos para esta exposição selvagem que acaba nos privando da própria subjetividade. Precisamos fazer uma escolha: devemos ser sujeitos de nosso lugar no mundo ou avatares, moedas a serem exploradas em seu potencial de troca, de produto? Quando decidirmos isso, as crianças e adolescentes entenderão a mensagem.

4 Comentários on “Twitcam”

  1. #1 marcus
    on Aug 2nd, 2010 at 18:41

    Não sou um grande estudioso da história, mas não ficaria surpreso se, desde tempos imemoriais, cada geração que está no comando da sociedade ache que a sua sucessora seja o fim da humanidade.
    Seguindo o raciocínio desta gente, os humanos tiveram seu ápice na África, em 100.000 a.C.

  2. #2 Carol
    on Aug 3rd, 2010 at 12:26

    Todo mundo gosta da exibição porque geralmente massageia o ego. Claro que dá pra se arrepender, claro que VAI se arrepender por se expor, mas ainda assim é delicioso quando você sabe que alguém viu e que, de uma forma ou de outra, gostou. O frenesi envolto nesses dois é que quando a gente tinha a idade deles o maior meio de se exibir era contando pra todo mundo o que você fez com a fulaninha atrás da moita – a única diferença, ao meu ver, é que agora dá pra provar seus feitos.

  3. #3 Marcia Alves
    on Aug 3rd, 2010 at 13:11

    Muito pertinente o seu texto. Me fez repensar minha própria postura diante das redes sociais que utilizo, mesmo não sendo mais adolescente a muitos anos.
    R: é uma reflexão minha também, já que participo ativamente do mundo online, e quero continuar participando. Vale questionar o que esperamos dele, e se teremos uma postura passiva ou não. Vale também pensar na questão da sexualidade, e de como e o que fazemos nesse processo de inserção do adolescente. Muito se diz sobre adolescentes, muitas regras são colocadas, mas pouco se ouve e pouco se olha realmente para eles.

  4. #4 Catarine
    on Aug 17th, 2010 at 15:32

    Parabéns pela direção que se seguiu o texto.
    Seria bem mais fácil escrever um texto cheio de moral e de valores que julgassem a atitude desses dois adolescentes. Mas, ao invés disso, o texto nos leva a refletir do que a sociedade pede de nós, do que está nas entrelinhas.
    Observar o que esperam como troca quando ‘entramos’ nessas redes sociais!