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Vá visitar sua avó, se quiser.

Pense na situação que a maioria de nós conhece de nossa infância: a pobre criança que, numa tarde de domingo, tem de visitar a avó em vez de ter permissão para brincar com os amigos. A mensagem do pai antiquado e autoritário para a criança relutante teria sido: “Não me importa o que você sente. Simplesmente cumpra o seu dever, vá à casa da sua avó e comporte-se lá!”. Nesse caso, a situação da criança não é nada má: embora obrigada a fazer algo que claramente não quer, conservará sua liberdade interna e a capacidade de (mais tarde) se rebelar contra a autoridade paterna. Muito mais difícil teria sido a mensagem de um pai “não autoritário” pós-moderno: “Você sabe como sua avó o ama! Mesmo assim, não quero obrigá-lo a nada – vá apenas se realmente quiser!”. Todas as crianças que não sejam tolas (isto é, a maioria delas) reconhecerão imediatamente a armadilha dessa atitude permissiva: sob a aparência da livre escolha há uma exigência ainda mais opressiva que aquela formulada pelo pai autoritário tradicional, a saber, uma injunção implícita não só de visitar a vovó, mas de fazê-lo voluntariamente, pela livre vontade da criança. Uma falsa livre escolha como essa é a injunção obscena do supereu [grifos meus]: ele priva a criança até de sua liberdade interior, prescrevendo não só o que deve fazer, mas o que deve querer fazer.

- Slavoj Žižek em “Deus está morto, mas Ele não sabe” (Como Ler Lacan, Zahar, 2010)

1 Comentário on “Vá visitar sua avó, se quiser.”

  1. #1 Roger
    on Dec 30th, 2010 at 11:26

    Que situação complicada, meu amigo.

    Deixar o pentelho em casa com dez reais na mão para se virar enquanto nós visitamos a vovó tb não pode, né?