Submarino.com.br
Marcos Donizetti Rotating Header Image

Proteção?

“A PM na rua, nosso medo de viver
um consolo é que eles vão me proteger
a unica pergunta é: me proteger do que?” – “
Proteção”, Plebe Rude (1986).

Moro na periferia de uma cidade da Grande São Paulo. Recentemente voltava para casa junto de meu pai, de carro, durante a madrugada, e encontramos uma viatura da Polícia Militar. Compartilhamos uma tensão absurda, eu e ele. Foram longos e horríveis minutos de silêncio e desconforto. Em determinado momento perguntei a meu pai se a viatura estava nos seguindo e fiquei realmente preocupado com a resposta afirmativa. O alívio veio apenas quando entramos na rua de casa e os policiais (eram dois) seguiram por outro caminho.

A cena é interessante e dá o que pensar por vários motivos. O mais óbvio deles é que não tínhamos drogas no banco traseiro ou um cadáver no porta-malas (vocês terão de acreditar em mim). Ou seja, não havia um motivo direto para temer a presença dos policiais. Pelo contrário, numa região em que já foi comum a ação de “justiceiros” (pés-de-pato, quem conhece o termo?), deveríamos ter medo, por exemplo, de um Opala 73 preto com as luzes apagadas, e não de uma viatura policial que supostamente estava ali para “servir e proteger”.

Fiquei alguns dias pensando a respeito e não foi difícil concluir que a questão não era objetiva ou lógica. Não importavam aqueles policiais especificamente ou a razão deles estarem ali, mas o lugar que a própria instituição Polícia ocupa em nosso imaginário.  Quando ocorreu a redemocratização, a restauração do nosso estado de direito, eu já tinha 10 anos de idade. Isso significa que estive às voltas com a ditadura e suas conseqüências reais e simbólicas durante toda a minha primeira infância, ainda que eu não tenha vivido o período mais crítico da repressão perpetrada pelo regime militar.

Ora, dizem que é neste período de nossa vida que se inscrevem as regras determinantes de nossa relação com o mundo, não? Minha mãe dá conta de que eu morria de medo de policiais e que me escondia sempre que um vizinho que trabalhava na PM aparecia. Deixando de lado questões pessoais com figuras de autoridade que poderiam ter outra explicação, fica fácil pensar este meu medo dentro do contexto daquela época. Meu pai e tios eram obrigados a andar com um documento, a carteira profissional, probatório de que eram “trabalhadores e homens de bem”. O indivíduo revistado durante uma blitz que não apresentasse este documento corria o risco de ser humilhado ou espancado, e todos os adultos do meu convívio conheciam um caso do gênero. Grupos de amigos evitavam se reunir nas ruas, porque o regime detestava aglomerações, e meu pai contava de pessoas conhecidas que haviam entrado naquelas veraneios da polícia para nunca mais voltar. A Polícia com a qual primeiro tive contato era a representante mais próxima e direta de um regime totalitário covarde. Simples assim.

Minha adolescência se deu em outro contexto. A segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90 foram marcados por um verdadeiro desbunde. Aparentemente as pessoas eram livres de novo. Livres para respirar, “livres para voar”, como numa telenovela da época. Parece exagerado e utópico, mas era assim que nos sentíamos. Era agradável poder discutir mesmo o que havia de pior em nossa sociedade. “Brasil, mostra a tua cara”. Foi uma alegria indizível acompanhar o processo eleitoral de 1989 (mesmo sem poder votar ainda). Éramos puro otimismo e esperança. Sabemos o que aconteceu depois, mas o próprio processo de Impeachment, marcado pela mobilização popular, foi um sopro de esperança. Ser um “cara pintada” significava sentir o poder nas próprias mãos, significava acreditar que poderíamos mudar as coisas, interferir no processo. Olhávamos para o futuro com otimismo.

Ocorre que esse futuro chegou e se mostrou bem menos colorido. Faço essa reflexão toda pensando num fato ocorrido ontem, quinta-feira, 13 de janeiro. Um grupo de estudantes se reuniu no centro da cidade para protestar contra o aumento do preço das passagens de ônibus, bem acima da inflação. O vídeo (logo abaixo, não deixe de ver) mostra essas pessoas sendo violentamente agredidas, sem motivo aparente.

O que me chama atenção é que, exatamente como nos tempos da ditadura, as pessoas simplesmente não repercutem o fato. Há 30 anos havia o medo, a repressão e a censura. Hoje a equação me parece mais equilibrada, com aumento considerável da apatia e da indiferença.

Mas uma coisa precisa ficar clara: a bala de borracha disparada contra um sujeito que está fazendo uma manifestação pacífica em nome de uma causa que considera justa não atinge apenas ele. O ferimento é nosso, a ofensa é contra cada um de nós. Feridos e doloridos estão a sociedade civil e o estado de direito. O spray de pimenta faz lacrimejar os olhos da justiça e da democracia. O policial que agride manifestantes está obedecendo ordens diretas de um governo que busca legitimação também na vigilância, e que no mínimo está sendo conivente com essa violência que tenta nos fazer calar.

O agressor covarde provavelmente é um desequilibrado, mas também é mensageiro. É portador de um recado e de um discurso ao qual devemos prestar muita atenção. Ao que parece, manter a “ordem” a qualquer custo é mais importante que servir e proteger. Dói perceber que tanto tempo se passou e esse meu receio e desconforto diante da Polícia continuem tendo razão de ser, fora dos domínios da minha fantasia.

De qualquer forma, não devemos deixar que o medo e a indiferença calem dois questionamentos importantes, que cabem a cada um de nós: é essa ordem, esse estado de coisas, que queremos para nós e para nossos filhos? Quem está sendo realmente protegido?

Repressão brutal da PM contra estudantes em SP

5 Comentários on “Proteção?”

  1. #1 Tweets that mention Proteção? | Marcos Donizetti -- Topsy.com
    on Jan 14th, 2011 at 11:53

    [...] This post was mentioned on Twitter by rabc and Eduardo Miranda, Lis Comunello. Lis Comunello said: RT @doni: Meu pitaco sobre a polícia agredindo estudantes em SP ontem: http://migre.me/3DISP [...]

  2. #2 Daniela
    on Jan 14th, 2011 at 12:02

    Quando vejo imagens assim – o que infelizmente é bastante frequente – fico completamente perplexa. A sociedade em que vivemos aprendeu a ser omissa, indiferente… Aqueles que ousam levantar a voz são imediatamente reprimidos de formas bastante violentas e somos todos levados a nos calar. O que os outros pensam daqueles que saem nas ruas? Que são eles os violentos, que merecem esse tratamento, que são baderneiros e arruaceiros, são criminosos. É com aperto no peito que concluo que a Ditadura de Segurança Nacional no Brasil cumpriu seu papel.

    Belo texto, como sempre.

  3. #3 carmen regina dias
    on Jan 14th, 2011 at 12:28

    Magnifica matéria relato.
    Eu estou de cara, estupefata, constrangida, magoada,
    náo posso crer que isto aconteceu.

    Mas sei que é real.

    Lamentavel.

    Chocante.

    Tétrico.

    Mau presságio.

  4. #4 Diego Viana
    on Jan 14th, 2011 at 17:29

    Caraca Marcão, esse é um negócio que tem me preocupado há tempos. Forças de ordem como instrumentos de manutenção de uma atmosfera constante de medo e de limitação da cidadania – porque não é menos que uma limitação à cidadania quando os cidadãos se abstêm de atuar no espaço público, um direito fundamental, por conta de medo. A polícia como ferramenta de intimidação em todas as esferas, ao criminoso como à vitima, é uma tendência mundial, infelizmente, e prenuncia tempos terríveis…

  5. #5 Marcos Donizetti
    on Jan 14th, 2011 at 20:34

    É exatamente isso que me preocupa, meu caro.