O trecho abaixo é resposta a este texto do Daniel Lopes, que é mais uma contribuição a um debate que começou entre o amigo Biajoni (aqui) e eu (aqui):
“Claro, qualquer um que acorde no meio da noite sentindo uma dor no lado esquerdo do peito está livre para procurar na manhã seguinte um borracheiro ou um homeopata, mas o preocupante é a frequência com que a crítica da banalização ou da ignorância científica dos meios de comunicação resvala para o discurso anticiência.”
Bem, quem dera a questão fosse tão simples. Antes de mais nada, eu estou extremamente distante de alguém que poderia postular um discurso anticiência, pois acima de qualquer coisa me considero um homem da ciência. Como muitos dos que estão nos lendo, fui (e ainda sou) uma criança que cresceu fascinada pela divulgação científica de Carl Sagan (que fantástico ateu) e por assuntos como Evolução das Espécies, Relatividade e Astrofísica. Se hoje meu referencial teórico é a Psicanálise (e é óbvio que podemos discutir seu status científico), minha trajetória acadêmica começou com a Física (ainda e sempre um dos meus grandes amores).
A crítica da Racionalidade Tecnológica surge em defesa da ciência, contra a apropriação do discurso científico por interesses outros e por uma dinâmica que, paradoxalmente, leva ao embotamento (um efeito colateral de religiões também) e à diminuição da capacidade crítica. Ao mesmo tempo, a crítica a essa apropriação ideológica da ciência é parte de uma ética humanista, já que alerta contra o que chamamos de reificação do sujeito. A ciência, a capacidade de questionar-se e ao mundo que nos cerca, talvez seja a principal capacidade humana. Quando um discurso ideológico, pretensamente científico, age em sentido contrário, surge essa crítica. Recomendo como referência o livro “Computador No Ensino E A Limitação Da Consciência”, de José Leon Crochik.
“Ademais, convenhamos: Nietzsche, Sartre e Freud não tinham como saber tanto de biologia, neurociência ou psicologia evolutiva quanto Dawkins. E se você acha que essas áreas são dispensáveis para uma melhor compreensão dos fenômenos religiosos, então está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Dawkins, mas também Daniel Dennett, Steven Pinker, Nicholas Humphrey, Pascal Boyer, Matt Ridley, Jesse Bering e mais um punhado de outros autores, “ateus militantes” ou não.”
Concordo com você em um ponto: a possível utilidade de Dawkins como “porta de entrada” de um grande público para novos e mais aprofundados estudos a respeito das religiões. Dou meu braço a torcer aí. Porém, infelizmente, conheço pouquíssimas pessoas que dão esse passo. Acho Dawkins fantástico enquanto cientista, com trabalhos realmente sensacionais em áreas que você citou. Conheço também alguns dos autores que você diz que devo ler com mais atenção, mas reafirmo: “Biologia, Neurociência ou Psicologia Evolutiva” realmente são dispensáveis para uma melhor compreensão tanto dos fenômenos religiosos quanto do conceito Deus.
São fenômenos de outra ordem, e aí refuto os trabalhos de Dawkins nessa área como, sim, ruins. É tentar um embate fora de seu campo. Estou longe de ser um analfabeto na área das neurociências, e te digo que usar este referencial para explicar fenômenos de ordem majoritariamente cultural e psicológica é algo infecundo, e parte do problema do status ideológico da ciência que eu citei acima (recomendo este blog, The Neurocritic). Acreditar que fenômenos dessa ordem ou, no limite, a (in)existência de Deus, possam ser provados ou negados com base em Biologia, Física, Química ou “Psicologia Evolutiva” (ARGH!) configura uma crença (a não ser que achem o gene da religião ou a localização de Deus no sistema nervoso) que não resolve este embate secular “ciência x religião”.
Deus é conceito, é idéia, é representação simbólica associada a uma instância psíquica que independe de quaisquer “fatos” contra si apresentados neste enfoque “científico” à la Dawkins. Meu argumento é que a existência ou não de Deus no mundo real, físico, natural, mensurável etc nem importa. Sejamos sinceros, se as evidências factuais das ciências naturais fossem a arma correta para “matar” Deus, já não teríamos mais criacionistas há tempos. Porém, Deus age enquanto conceito associado e indissociável da nossa própria estrutura subjetiva. Os autores que citei, Nietzsche, Sartre e Freud, na verdade não precisavam desses conhecimentos em Biologia e Neurociência pelo simples motivo de que este embate é acima de tudo sociológico, filosófico e psicológico. Neste campo, a discussão é muito mais fecunda, porém trata-se de terreno mais árido, pois aí não estamos protegidos por um certo determinismo reconfortante presente, por exemplo, na “Psicologia Evolutiva”. Trata-se de responsabilidade, de apropriação da condição de Sujeito, de postura ética e política.
Por fim, agradeço a contribuição ao debate (que é uma delícia), mas te digo: se acredita que Biologia, Neurociência e Psicologia Evolutiva são áreas que contribuem de maneira indispensável ao entendimento dos fenômenos religiosos, está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Nietzche, Sartre, Freud, Zizek, Lacan e mais um punhado de outros autores.
UPDATE:
Sugestões de leitura (alguns dos textos que fundamentam minha posição):
- “Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses”, Contardo Calligaris; [para entender Deus enquanto metáfora paterna, entre outras coisas]
- “Deus está morto, mas Ele não sabe: Lacan brinca com Bobók”, Žižek; ["O ateu moderno pensa saber que Deus está morto; o que ele não sabe é que, inconscientemente, continua acreditando em Deus"]
- “O real da ilusão cristã: notas sobre Lacan e a religião”, Žižek;
- “Deus é inconsciente”, Regnauld;
- “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, Lacan; ["Se Deus está morto, nada é permitido"]
- Seminários: “As Psicoses”, “A Transferência”, “A Ética da Psicanálise”, Lacan. [todos em algum momento citando a "questão Deus"]
Fica a pergunta: qual Deus estamos tentando matar?

on Jan 28th, 2011 at 14:52
Deixei uma breve resposta ao seu post-comentário lá nos comentários do Index. Não vou postar novamente aqui, senão vou acabar virando spam :-p
on Jan 28th, 2011 at 17:13
aqui, Doni concorda no ponto de Dawkins como “porta de entrada” para o assunto, e resume o que disse e penso.
o livro de Dawkins é para a MÃE DO PEQUENO JIMMY – embora eu ache incrível que ainda existam milhares de MÃES DO PEQUENO JIMMY.
on Jan 29th, 2011 at 06:44
O problema, Bia, é que a “porta de entrada” seja algo tão falho (por motivos que podem nos levar a discutir aqui por milênios). A Saga Crepúsculo pode funcionar trazendo neófitos para o mundo dos livros e fazendo com que alguns deles se apaixonem pela leitura. Mas nunca será boa literatura, nunca será lá muito relevante… “Ah, mas fez com que pessoas gostassem de livros”. Sei lá.
on Jan 29th, 2011 at 11:30
Quer dizer então que, aceitando que a existência de Deus (no mundo físico) seja uma mentira, você continua não vendo problema algum com as pessoas acreditarem nessa mentira por que na verdade o importante é como elas se sentem sobre isso?
on Jan 29th, 2011 at 12:46
Não dá para provar a (in)existência de Deus no mundo físico. O único que existe “com certeza” está no mundo conceitual.
on Jan 31st, 2011 at 21:45
[...] Ainda em torno do debate começado por Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. E continuado por Daniel Lopes e André Egg. Leia também segundo post do Doni. [...]
on Jan 31st, 2011 at 21:47
[...] Donizetti. Na seqüência Daniel Lopes e André Egg também escreveram sobre o tema. O Doni fez mais um post. Peço que relevem um possível desarranjo do texto, pois fundi uma seqüência de raciocínios [...]
on Feb 3rd, 2011 at 16:08
Marcos, sempre me faltava a compreensão do por que, por mais que eu concordasse com Dawkins, ele ainda me parecesse ainda insuficiente e sem um propósito (além de seu monocórdio martelar em cima da inutilidade das religiões). Daí, ontem, veio-me a resposta, ao assistir ao excepcional documentário Zeitgeist. É que um elucidamento dos atrasos que as crenças religiosas fizeram contra o espírito criativo humano, sem uma reação positiva na reconstrução humana em todos os outros setores, como financeiro, político, etc, cai por terra, passa a ser discurso de intelectuais acadêmicos privilegidos pela posição social e por altos salários para poderem prescindir do lenitivo das igrejas. O homem comum, martirizado por uma sociedade escravocrata como a que se vive hoje, não tem condições de assumir um ateísmo adstringente. Para quê? Para morrer de extenuação e roubo feito por bancos e por empregos de ações repetitivas? Falta a Dawkins e aos demais ateus da hora, saírem de suas alienantes e confortáveis especificações de acadêmicos, e partirem para a revolução social, para a reconstrução do humano, com o fim da corporatocracia. Zeitgeist mostra o caminho. Há uma resenha sobre esse filme fundamental em meu blog.
on Feb 4th, 2011 at 18:45
[...] você perdeu o thread, foi assim: Doni >> Bia >> Doni >> Dani >> Doni >> [...]
on Mar 1st, 2011 at 16:12
[...] depois o Daniel Lopes (“Dawkins é necessário, pode acreditar”), o Doni novamente (“Dawkins é necessário? A questão é acreditar”) e depois o André (“Mais um pitaco sobre Dawkins ou o ateísmo que desconhece a [...]