Submarino.com.br
Marcos Donizetti Rotating Header Image

O Kraftwerk e a atualidade

kraftwerk die mensch-maschine Gosto muito do Diogo Mainardi, ainda que não o acompanhe. É que colunas e matérias da Veja só chegam a mim nas conversas de bar com amigos, quando alguém quer comentar alguma notícia; e deixei de ver Manhattan Connection há anos (ele ainda está lá?). Gosto dele não por ser um bobo relativamente divertido, mas por ser um chato! Ninguém é mais importante para a sociedade que o chato, que o “do contra”. Mainardi é assim, quer sempre remar contra a maré. Existem motivações psicológicas nisso, claro, mas o que interessa é que pessoas assim são úteis e importantes. Em momentos de histeria coletiva, é o chato quem coloca na mesa o saudável contraponto. Mesmo que seja “só para irritar”, e que algumas vezes as opiniões sejam patéticas, o chato costuma trazer para o diálogo aspectos que ninguém estava vendo. Na ânsia por essa crítica exagerada que tem função social, o bom chato consegue, até sem querer, levantar questões relevantes; no mínimo nos dar material para reflexões. Foi o que aconteceu quando ele resolveu falar sobre Kraftwerk, vejam um trecho de Kraftwerk e Mozart:

Acompanhei seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha 15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca. Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes “Os Thunderbirds”.

Um ótimo texto do Mario Amaya, Em defesa do Kraftwerk, mostra algumas imprecisões do Mainardi e que seu argumento principal, a “evocação do futuro” por parte da banda, não está tão correto assim. Na verdade, a associação direta do Kraftwerk com o futurismo é parcial e superficial. Esse futurismo é muito mais estético, e como bem diz o Mario, pano de fundo para discutir questões muito atuais naquele momento (e provavelmente não só ali). Voltar-se para o futuro era colocar-se de fora e contemplar, não sem ironia, as contradições daquela sociedade. Era uma sociedade transformada e já aprisionada pelo progresso e por tudo de kitsch que havia nele. O “futurismo caipira” do Kraftwerk não tinha como objetivo falar de nós, mas deles, naquele momento específico da história. Eram crônicas de seu próprio tempo. Mas será que essa reflexão é mesmo datada? E se a banda estivesse mesmo fazendo um exercício de futurologia, teria errado tanto? Mainardi nos fala de “uniformes aderentes”, de “imobilidade”, de “afasia” e de “batidas narcóticas”. Estamos mesmo distantes disso? Nosso vestir não é mesmo padronizado, indiferenciado em sua “originalidade” e aderente? Não vivemos dopados, pelo uso de drogas ou não, imersos num mundo de sons e imagens fragmentadas onde, apesar dos extremos avanços da tecnologia, a comunicação está cada vez mais difícil? Neste contexto, preciso falar ainda de nossa imobilidade? A tecnologia transformou-se em fetiche, e nossas atitudes ficam restritas e limitadas geograficamente pelo espaço ocupado por nossas bundas em nossos sofás. Mainardi acerta ao dizer que a geração dele falhou. Mas a falha não está na qualidade da arte produzida nos últimos 30 anos, e sim no fato de não ter impedido que nos transformássemos em robôs, bem como a banda “profetizou”. vivemos um culto à individualidade, mas paradoxalmente somos cada vez mais tutelados. As diferenças individuais são sistematicamente incompreendidas e desrespeitadas. Somos todos “caipiras”, bichos-do-mato presos em nossos próprios umbigos; e o Kraftwerk me parece cada dia mais genial ao perguntar, já nos anos 1970, “o que é ser humano? No que estamos nos transformando?”. São perguntas de uma atualidade doída, e também quero perguntar: vamos deixar que nossa geração acabe por falhar também? Quando ouço Neonlicht [youtube], lembro-me de mim mesmo, no banco traseiro de uma Volkswagen Variant 1972, encantado e assustado com as luzes da cidade, caóticas e felizes, enquanto as pessoas andavam pelas calçadas cabisbaixas e tristes, sem saber quem eram ou para onde iam. Nada mais árido e solitário que encarar as próprias trevas imerso num universo de luz, e esses alemães são fantásticos por cantarem este paradoxo.

3 Comentários on “O Kraftwerk e a atualidade”

  1. #1 charlles campos
    on Aug 22nd, 2011 at 17:49

    Excelente texto!

    Mainard é enovelado demais nos próprios clichês que criou para si mesmo para ser levado a sério. Discordo de você quanto a ele ser o “chato”_ que, como você, sempre vi como importante componente de atiçar o debate social_, ele não é o chato. Há muito que não ouvia mais falar de Mainard. Li muitos textos dele quando assinava a Veja, e a quase unanimidade deles é obtusa, falsamente provocativa e revelador do garotinho tolo de classe alta que Mainard sempre foi. Ele poderia ter usado um cem número de outros exemplos mais felizes para encaixar em sua crítica à falha dos visionários do futuro (Philip k. Dick, as outras bandinhas futuristas à lá Devo, etc.), mas pegar Kraftwerk foi de uma infelicidade extrema. Ele mostrou não compreender nem um pouco o que os alemães tem de fundamental (desde os primeiros álbuns minimalistas e mesmo no Neu!): a ironia desencantada, o modo de falar da inevitabilidade através de possíveis adaptações da sensibilidade humana à máquina (como na tocante música Pocket Calculator); falar sobre a atmosfera de uma forma pura e chocante justamente por restringir-se a uma crítica direta (como na assustadora Radio-activity).

    Seu texto foi um resultado feliz de uma procura por alguma substância na net dessa segunda-feira, o que já confirma, mais uma vez, o quanto o Kraftwerk é genial.

    Abraços.

  2. #2 silverkraft
    on Sep 21st, 2011 at 02:03

    Muito bem explanado pelos amigos, concordo com vocês.
    Houve um tempo em que pegava a Veja só para ler o
    Mainard, mas chega um momento que cansa, ele e outros
    ‘guri de apartamento’.
    Abraços.

  3. #3 Ekologist
    on Oct 25th, 2011 at 03:09

    Mainard é enovelado demais nos próprios clichês que criou para si mesmo para ser levado a sério. Discordo de você quanto a ele ser o “chato”_ que, como você, sempre vi como importante componente de atiçar o debate social_, ele não é o chato. Há muito que não ouvia mais falar de Mainard. Li muitos textos dele quando assinava a Veja, e a quase unanimidade deles é obtusa, falsamente provocativa e revelador do garotinho tolo de classe alta que Mainard sempre foi. Ele poderia ter usado um cem número de outros exemplos mais felizes para encaixar em sua crítica à falha dos visionários do futuro (Philip k. Dick, as outras bandinhas futuristas à lá Devo, etc.), mas pegar Kraftwerk foi de uma infelicidade extrema. Ele mostrou não compreender nem um pouco o que os alemães tem de fundamental (desde os primeiros álbuns minimalistas e mesmo no Neu!): a ironia desencantada, o modo de falar da inevitabilidade através de possíveis adaptações da sensibilidade humana à máquina (como na tocante música Pocket Calculator); falar sobre a atmosfera de uma forma pura e chocante justamente por restringir-se a uma crítica direta (como na assustadora Radio-activity).
    +1