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		<title>O Kraftwerk e a atualidade</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 01:06:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Gosto muito do Diogo Mainardi, ainda que não o acompanhe. É que colunas e matérias da Veja só chegam a mim nas conversas de bar com amigos, quando alguém quer comentar alguma notícia; e deixei de ver Manhattan Connection há anos (ele ainda está lá?). Gosto dele não por ser um bobo relativamente divertido, mas [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="posterous_download_image" src="http://www.interney.net/blogs/media/blogs/hedonismos/die-mensch-maschine.jpg" border="0" alt="kraftwerk die mensch-maschine" hspace="5" vspace="5" width="240" height="240" align="right" /> Gosto muito do <strong>Diogo Mainardi</strong>, ainda que não o acompanhe. É que colunas e matérias da <strong>Veja</strong> só chegam a mim nas conversas de bar com amigos, quando alguém quer comentar alguma notícia; e deixei de ver <a href="http://globosat.globo.com/gnt/programas/programa.asp?gid=19">Manhattan Connection</a> há anos (ele ainda está lá?). Gosto dele não por ser um bobo relativamente divertido, mas por ser um chato! Ninguém é mais importante para a sociedade que o chato, que o &#8220;do contra&#8221;. Mainardi é assim, quer sempre remar contra a maré. Existem motivações psicológicas nisso, claro, mas o que interessa é que pessoas assim são úteis e importantes. Em momentos de histeria coletiva, é o chato quem coloca na mesa o saudável contraponto. Mesmo que seja &#8220;só para irritar&#8221;, e que algumas vezes as opiniões sejam patéticas, o chato costuma trazer para o diálogo aspectos que ninguém estava vendo. Na ânsia por essa crítica exagerada que tem função social, o bom chato consegue, até sem querer, levantar questões relevantes; no mínimo nos dar material para reflexões. Foi o que aconteceu quando ele resolveu falar sobre <strong>Kraftwerk</strong>, vejam um trecho de <a href="http://veja.abril.com.br/idade/podcasts/mainardi/integra_250309.html">Kraftwerk e Mozart</a>:</p>
<blockquote><p>Acompanhei seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha 15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca. Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes &#8220;Os Thunderbirds&#8221;.</p></blockquote>
<p>Um ótimo texto do <strong>Mario Amaya</strong>, <a href="http://marioav.blogspot.com/2009/04/em-defesa-do-kraftwerk.html">Em defesa do Kraftwerk</a>, mostra algumas imprecisões do Mainardi e que seu argumento principal, a &#8220;evocação do futuro&#8221; por parte da banda, não está tão correto assim. Na verdade, a associação direta do <a href="http://www.kraftwerk.com/">Kraftwerk</a> com o futurismo é parcial e superficial. Esse futurismo é muito mais estético, e como bem diz o Mario, pano de fundo para discutir questões muito atuais naquele momento (e provavelmente não só ali). Voltar-se para o futuro era colocar-se de fora e contemplar, não sem ironia, as contradições daquela sociedade. Era uma sociedade transformada e já aprisionada pelo progresso e por tudo de <em>kitsch</em> que havia nele. O &#8220;futurismo caipira&#8221; do Kraftwerk não tinha como objetivo falar de nós, mas deles, naquele momento específico da história. Eram crônicas de seu próprio tempo. Mas será que essa reflexão é mesmo datada? E se a banda estivesse mesmo fazendo um exercício de futurologia, teria errado tanto? Mainardi nos fala de &#8220;uniformes aderentes&#8221;, de &#8220;imobilidade&#8221;, de &#8220;afasia&#8221; e de &#8220;batidas narcóticas&#8221;. Estamos mesmo distantes disso? Nosso vestir não é mesmo padronizado, indiferenciado em sua &#8220;originalidade&#8221; e aderente? Não vivemos dopados, pelo uso de drogas ou não, imersos num mundo de sons e imagens fragmentadas onde, apesar dos extremos avanços da tecnologia, a comunicação está cada vez mais difícil? Neste contexto, preciso falar ainda de nossa imobilidade? A tecnologia transformou-se em fetiche, e nossas atitudes ficam restritas e limitadas geograficamente pelo espaço ocupado por nossas bundas em nossos sofás. Mainardi acerta ao dizer que a geração dele falhou. Mas a falha não está na qualidade da arte produzida nos últimos 30 anos, e sim no fato de não ter impedido que nos transformássemos em robôs, bem como a banda &#8220;profetizou&#8221;. vivemos um culto à individualidade, mas paradoxalmente somos cada vez mais tutelados. As diferenças individuais são sistematicamente incompreendidas e desrespeitadas. Somos todos &#8220;caipiras&#8221;, bichos-do-mato presos em nossos próprios umbigos; e o Kraftwerk me parece cada dia mais genial ao perguntar, já nos anos 1970, &#8220;o que é ser humano? No que estamos nos transformando?&#8221;. São perguntas de uma atualidade doída, e também quero perguntar: vamos deixar que nossa geração acabe por falhar também? Quando ouço <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iPDCiHLsFMU">Neonlicht</a> [youtube], lembro-me de mim mesmo, no banco traseiro de uma <em>Volkswagen Variant 1972</em>, encantado e assustado com as luzes da cidade, caóticas e felizes, enquanto as pessoas andavam pelas calçadas cabisbaixas e tristes, sem saber quem eram ou para onde iam. Nada mais árido e solitário que encarar as próprias trevas imerso num universo de luz, e esses alemães são fantásticos por cantarem este paradoxo.</p>
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		<title>Cisne Negro*</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Aug 2011 01:11:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Cisne Negro (Black Swan, 2010) debutou ontem nos cinemas brasileiros. Premiado trabalho de Darren Aronofsky (O Lutador), conta com atuações inesquecíveis de Natalie Portman (Nina), Mila Kunis (Lily) e Barbara Hershey (a mãe da protagonista). Foi um exercício divertido presenciar seu impacto sobre uma grande platéia. Quando o filme terminou, havia aplausos tímidos e expressões [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a title="Cisne Negro por marcdoni, no Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/marcdoni/5419115624/"><img src="http://farm6.static.flickr.com/5259/5419115624_e6fda7f379_m.jpg" alt="Cisne Negro" hspace="5" vspace="5" width="162" height="240" align="left" /></a></p>
<p>Cisne Negro <em>(Black Swan, 2010)</em> debutou ontem nos cinemas brasileiros. Premiado trabalho de Darren Aronofsky (O Lutador), conta com atuações inesquecíveis de Natalie Portman (Nina), Mila Kunis (Lily) e Barbara Hershey (a mãe da protagonista). Foi um exercício divertido presenciar seu impacto sobre uma grande platéia. Quando o filme terminou, havia aplausos tímidos e expressões estupefatas. Outros mostravam-se visivelmente confusos e perdidos. Eram comuns expressões do tipo &#8220;que filme absurdo é esse&#8221; e, num intervalo de poucos metros em direção à saída, ouvi a pergunta &#8220;você entendeu?&#8221; pelo menos seis vezes.</p>
<p>O público não sabia o que o aguardava. Cisne Negro vem sendo vendido pela imprensa como &#8220;um filme sobre as tensões e a pressão do mundo do balé&#8221;, um &#8220;<em>thriller</em> psicológico, um suspense sobre a competição em uma companhia de dança&#8221;, quando na verdade é uma verdadeira obra-prima sobre a loucura.</p>
<p>Sua estrutura narrativa não é nova ou original. A vida do artista misturada à obra por ele encenada aparece, por exemplo, na célebre ópera I Pagliacci de Ruggero Leoncavallo (1892). O que salta da tela não é uma história linear, mas uma encenação do Lago dos Cisnes (balé baseado num conto de fadas), em que trilha sonora e enquadramento nos convidam a dançar junto da câmera. Estamos o tempo todo diante de um espetáculo de dança inusitado, visto &#8220;de dentro&#8221;, o que por si só já causaria vertigens, e marcado pela alucinação.</p>
<p>Saí do cinema pensando em outra belíssima, e nesse caso singela, obra em que a loucura se faz presente: o documentário Loki &#8211; Arnaldo Baptista (2008). Arnaldo foi convidado, em 1978, para a direção musical do espetáculo &#8220;Heliogábalo, Anarquista Coroado&#8221;, baseado no texto de Antonin Artaud. Essa experiência parece ter sido o gatilho para mais uma crise, que acabaria por levá-lo a uma tentativa de suicídio. Em Loki, companheiros dele nessa produção teatral narram o efeito do contato com a dança sobre ele. Hora deixava a música de lado para dançar junto do grupo, hora parava de tocar e ficava olhando para o vazio, hora abandonava os ensaios. Há um depoimento emocionante sobre um diálogo em que ele pergunta a uma das bailarinas (se não me engano): &#8220;como você aguenta?&#8221;. Quando questionado sobre o que estava querendo dizer, ele respondeu: &#8220;eu me sinto completamente esburacado por essa experiência; pessoas estão dançando e passando por todos os meus poros&#8221;. Não consigo pensar em fala mais ilustrativa do que é o enlouquecer, e impossível não pensar em Nina (Natalie Portman).</p>
<p>Diferentemente do que se pensa, a loucura não é &#8220;perda de contato com a realidade&#8221;. Pelo contrário, o indivíduo é invadido pela realidade externa, sem defesas. O corpo &#8220;esburacado&#8221; acaba dando lugar a um &#8220;não corpo&#8221; em que mundo externo, &#8220;realidade&#8221;, e interno se misturam. Ou seja (ficará fácil para vocês reconhecerem isso), não há como sabermos exatamente o que é real ou alucinação em Cisne Negro. Passamos dançando pelos poros de Nina (que têm enorme importância simbólica no filme) a todo momento. O Lago dos Cisnes é encenado neste corpo que não existe e que já não existia no início do filme (Nina não É fora da fantasia de sua mãe, personagem extremamente importante aqui). Odette, a Rainha dos Cisnes, e Odile, a vilã, são representações de uma cisão interna do duplo bem x mal, branco x preto etc; e de um embate em torno da sexualidade reprimida, que se mantém de forma precária, mas não por muito tempo. A &#8220;disputa&#8221;, como podem perceber, não é entre duas antagonistas por um papel no espetáculo, e acaba nem sendo exatamente uma disputa.</p>
<p>Ocorre que a alucinação aqui é uma tentativa de estruturar-se, de obter alguma organização. A protagonista inicia o filme desintegrada e &#8220;esburacada&#8221;, mas vai se constituindo, se integrando, ganhando um corpo, um contorno. Nina se coça compulsivamente e alucina sua relação com Odile-Lily (Mila Kunis). A coceira que faz sangrar permite que este contorno seja reconhecido e que ocorra uma transformação. Mesmo em seus momentos mais <em>kitsch </em>e exagerados<em>, </em>Cisne Negro parece manter-se fiel a uma lógica que é a da alucinação. Odile-Lily, força erótica e impulsiva, parece cumprir seu papel, e não me surpreende a idéia de que talvez Lily nem exista fora da alucinação de Nina&#8230; Compreensível o fato deste filme ser tão deliciosamente perturbador, não?</p>
<p><em>* Originalmente publicado no dia 05 de fevereiro de 2011.</em></p>
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		<title>Dawkins é necessário? A questão é acreditar!</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Jan 2011 06:26:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[O trecho abaixo é resposta a este texto do Daniel Lopes, que é mais uma contribuição a um debate que começou entre o amigo Biajoni (aqui) e eu (aqui): &#8220;Claro, qualquer um que acorde no meio da noite sentindo uma dor no lado esquerdo do peito está livre para procurar na manhã seguinte um borracheiro [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O trecho abaixo é resposta a <a href="http://index.opsblog.org/01/2011/dawkins-e-necessario-pode-acreditar/" target="_blank">este texto</a> do <strong>Daniel Lopes</strong>, que é mais uma contribuição a um debate que começou entre o amigo <strong>Biajoni</strong> (<a href="http://biajoni.opsblog.org/2011/01/26/dawkins-e-necessario/" target="_blank">aqui</a>) e eu (<a href="http://donizetti.opsblog.org/2011/01/26/dawkins-e-necessario-tanto-quanto-stephenie-meyer/" target="_blank">aqui</a>):</p>
<blockquote>
<div id="_mcePaste">&#8220;Claro, qualquer um que acorde no meio da noite sentindo uma dor no lado esquerdo do peito está livre para procurar na manhã seguinte um borracheiro ou um homeopata, mas o preocupante é a frequência com que a crítica da banalização ou da ignorância científica dos meios de comunicação resvala para o discurso anticiência.&#8221;</div>
</blockquote>
<p>Bem, quem dera a questão fosse tão simples. Antes de mais nada, eu estou extremamente distante de alguém que poderia postular um discurso anticiência, pois acima de qualquer coisa me considero um homem da ciência. Como muitos dos que estão nos lendo, fui (e ainda sou) uma criança que cresceu fascinada pela divulgação científica de Carl Sagan (que fantástico ateu) e por assuntos como Evolução das Espécies, Relatividade e Astrofísica. Se hoje meu referencial teórico é a Psicanálise (e é óbvio que podemos discutir seu status científico), minha trajetória acadêmica começou com a Física (ainda e sempre um dos meus grandes amores).</p>
<p>A crítica da Racionalidade Tecnológica surge em defesa da ciência, contra a apropriação do discurso científico por interesses outros e por uma dinâmica que, paradoxalmente, leva ao embotamento (um efeito colateral de religiões também) e à diminuição da capacidade crítica. Ao mesmo tempo, a crítica a essa apropriação ideológica da ciência é parte de uma ética humanista, já que alerta contra o que chamamos de reificação do sujeito. A ciência, a capacidade de questionar-se e ao mundo que nos cerca, talvez seja a principal capacidade humana. Quando um discurso ideológico, pretensamente científico, age em sentido contrário, surge essa crítica. Recomendo como referência o livro <em>&#8220;Computador No Ensino E A Limitação Da Consciência&#8221;</em>, de José Leon Crochik.</p>
<blockquote>
<div id="_mcePaste">&#8220;Ademais, convenhamos: Nietzsche, Sartre e Freud não tinham como saber tanto de biologia, neurociência ou psicologia evolutiva quanto Dawkins. E se você acha que essas áreas são dispensáveis para uma melhor compreensão dos fenômenos religiosos, então está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Dawkins, mas também Daniel Dennett, Steven Pinker, Nicholas Humphrey, Pascal Boyer, Matt Ridley, Jesse Bering e mais um punhado de outros autores, “ateus militantes” ou não.&#8221;</div>
</blockquote>
<p>Concordo com você em um ponto: a possível utilidade de Dawkins como &#8220;porta de entrada&#8221; de um grande público para novos e mais aprofundados estudos a respeito das religiões. Dou meu braço a torcer aí. Porém, infelizmente, conheço pouquíssimas pessoas que dão esse passo. Acho Dawkins fantástico enquanto cientista, com trabalhos realmente sensacionais em áreas que você citou. Conheço também alguns dos autores que você diz que devo ler com mais atenção, mas reafirmo: &#8220;Biologia, Neurociência ou Psicologia Evolutiva&#8221; realmente são dispensáveis para uma melhor compreensão tanto dos fenômenos religiosos quanto do conceito Deus.</p>
<p>São fenômenos de outra ordem, e aí refuto os trabalhos de Dawkins nessa área como, sim, ruins. É tentar um embate fora de seu campo. Estou longe de ser um analfabeto na área das neurociências, e te digo que usar este referencial para explicar fenômenos de ordem majoritariamente cultural e psicológica é algo infecundo, e parte do problema do status ideológico da ciência que eu citei acima (recomendo este blog, <a href="http://neurocritic.blogspot.com/" target="_blank">The Neurocritic</a>). Acreditar que fenômenos dessa ordem ou, no limite, a (in)existência de Deus, possam ser provados ou negados com base em Biologia, Física, Química ou &#8220;Psicologia Evolutiva&#8221; (ARGH!) configura uma crença (a não ser que achem o gene da religião ou a localização de Deus no sistema nervoso) que não resolve este embate secular &#8220;ciência x religião&#8221;.</p>
<p>Deus é conceito, é idéia, é representação simbólica associada a uma instância psíquica que independe de quaisquer &#8220;fatos&#8221; contra si apresentados neste enfoque &#8220;científico&#8221; à la Dawkins. Meu argumento é que a existência ou não de Deus no mundo real, físico, natural, mensurável etc nem importa. Sejamos sinceros, se as evidências factuais das ciências naturais fossem a arma correta para &#8220;matar&#8221; Deus, já não teríamos mais criacionistas há tempos. Porém, Deus age enquanto conceito associado e indissociável da nossa própria estrutura subjetiva. Os autores que citei, Nietzsche, Sartre e Freud, na verdade não precisavam desses conhecimentos em Biologia e Neurociência pelo simples motivo de que este embate é acima de tudo sociológico, filosófico e psicológico. Neste campo, a discussão é muito mais fecunda, porém trata-se de terreno mais árido, pois aí não estamos protegidos por um certo determinismo reconfortante presente, por exemplo, na &#8220;Psicologia Evolutiva&#8221;. Trata-se de responsabilidade, de apropriação da condição de Sujeito, de postura ética e política.</p>
<p>Por fim, agradeço a contribuição ao debate (que é uma delícia), mas te digo: se acredita que Biologia, Neurociência e Psicologia Evolutiva são áreas que contribuem de maneira indispensável ao entendimento dos fenômenos religiosos, está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Nietzche, Sartre, Freud, Zizek, Lacan e mais um punhado de outros autores.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong></p>
<p><strong>Sugestões de leitura</strong> <em>(alguns dos textos que fundamentam minha posição)</em>:</p>
<p>- &#8220;Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses&#8221;, Contardo Calligaris; [para entender Deus enquanto metáfora paterna, entre outras coisas]<br />
- “Deus está morto, mas Ele não sabe: Lacan brinca com Bobók”, Žižek; ["O ateu moderno pensa saber que Deus está morto; o que ele não sabe é que, inconscientemente, continua acreditando em Deus"]<br />
- &#8220;O real da ilusão cristã: notas sobre Lacan e a religião&#8221;, Žižek;<br />
- &#8220;Deus é inconsciente&#8221;, Regnauld;<br />
- &#8220;Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise&#8221;, Lacan; ["Se Deus está morto, nada é permitido"]<br />
- Seminários: &#8220;As Psicoses&#8221;, &#8220;A Transferência&#8221;, &#8220;A Ética da Psicanálise&#8221;, Lacan. [todos em algum momento citando a "questão Deus"]</p>
<p>Fica a pergunta: qual Deus estamos tentando matar?</p>
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		<title>Dawkins é necessário, tanto quanto Stephenie Meyer</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 11:30:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[O trecho abaixo é resposta a este texto do amigo Biajoni, que o escreveu motivado por minha frase &#8220;Acho o Richard Dawkins tão ruim que sua leitura me faz acreditar em Deus&#8221; (o efeito contrário ao esperado pelo autor e seus leitores mais fiéis): Caro amigo. Seu texto em defesa de Richard Dawkins, interessante, acabou [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O trecho abaixo é resposta a <a href="http://biajoni.opsblog.org/2011/01/26/dawkins-e-necessario/" target="_blank">este texto</a> do amigo <strong>Biajoni</strong>, que o escreveu motivado por minha frase <em>&#8220;Acho o Richard Dawkins tão ruim que sua leitura me faz acreditar em Deus&#8221; </em>(o efeito contrário ao esperado pelo autor e seus leitores mais fiéis):</p>
<p>Caro amigo. Seu texto em defesa de Richard Dawkins, interessante, acabou ficando mais &#8220;elegante&#8221; do que os próprios escritos dele. É claro que minha frase &#8220;de efeito&#8221; (segundo você) e as comparações bem humoradas que fiz entre <em>&#8220;Deus, um delírio&#8221;</em> e as obras de Paulo Coelho e da autora que citei no título desde post tiveram explicação nos comentários subseqüentes da minha postagem no Facebook. Você diz que Dawkins é popular e tem alcance, e te digo que nada disso adianta. Dawkins falha absurdamente em sua cruzada, por sua abordagem ruim e superficial da questão e por sua escrita para os &#8220;neófitos&#8221;. Pode ser uma ótima obra em termos de entretenimento (como os autores com quem o comparei), mas é sim superficial para qualquer um que tenha lido e estudado a sério a questão. Aqui cabem citações minhas que você já conhece:</p>
<blockquote><p>Sério, com Nietzsche, Sartre e Freud, ninguém precisa de Dawkins.</p></blockquote>
<p>E explico:</p>
<blockquote><p>&#8220;Deus é um delírio&#8221; é uma idéia requentada, com outro enfoque (o &#8220;científico&#8221;). Entender o poder dessa metáfora (Deus) e a partir daí pensar no potencial do humano, no libertador (cansei de citar o Nietzsche já) é mais importante que o &#8220;a-há, tá vendo como Deus não existe?&#8221;. Leiam &#8220;O Futuro de uma Ilusão&#8221; (Freud) e &#8220;Assim falou Zaratustra&#8221; e &#8220;O anticristo&#8221; (Nietzsche).</p></blockquote>
<p>Sem falar que Dawkins atrai o mesmo tipo de relação com os fãs destes autores. Ocorre uma personalização fanática e perigosa de um debate que deveria ser mais amplo. Uma leitora e amiga minha (atéia) deu RT em minha frase no twitter e foi mais atacada por fãs de Dawkins do que é por religiosos, quando os critica. Ou seja, temos um leitor de Dawkins afastado de N questões relacionadas ao tema, mas que sente que finalmente teve contato com &#8220;a boa nova&#8221;. Chega a ser engraçado, não?</p>
<p>No mais, vamos lá: sou extremamente simpático à causa. Me dói ver gente chamando a Evolução de &#8220;apenas uma teoria&#8221; (pura ignorância a respeito do que é teoria em termos científicos); me dói ver religiosos tendo ingerência sobre questões relacionadas a todos nós (direito ao aborto, criminalização da homofobia etc) e pregando preconceitos estúpidos. Me dói o fanatismo todo, óbvio, mas vamos pensar algumas coisas. Você diz:</p>
<blockquote><p>&#8220;Campbell ficaria horrorizado em ver como as distorções sobre os mitos religiosos vêm crescendo no mundo, motivando o fanatismo, o preconceito e a cegueira para os avanços científicos&#8221;.</p></blockquote>
<p>Será mesmo? Sim, as distorções sobre os mitos religiosos estão aí, há uma <em>turminha do barulho</em> que se organiza, faz <em>lobby</em>, desdenha da ciência e tal, mas &#8220;cegueira para os avanços científicos&#8221;? Não sei não&#8230; Isso é bem discutido, por exemplo, em estudos a respeito da <em>Ideologia da Racionalidade Tecnológica</em> e do <em>Culto ao Especialista</em>. A ciência (ou uma concepção do que seja ciência, amplamente aceita e marcada por determinadas posturas ideológicas) hoje nos governa e influencia mais ou pelo menos tanto quanto as religiões, e um exemplo simples e direto está no efeito das matérias em jornais, revistas e TV que começam com &#8220;cientistas dizem que&#8221;; que ditam nosso comportamento e pautam nossa sociedade hipermedicada. Busca-se uma &#8220;comprovação científica&#8221; para absolutamente qualquer bobagem que se queira propor, e a Genética, coitada, é a bola da vez, sendo causa e justificativa de nossos males. Onde está a cegueira?</p>
<p>Você continua:</p>
<blockquote><p>O livro tem essa função clara de apresentar fatos ao leitor, para provocar os religiosos convictos e “levar os religiosos por inércia a pensar racionalmente a sua crença”, conforme escrito na contracapa. O principal elogio que deve ser feito a Dawkins é a coragem que teve para escrevê-lo, nesses tempos em que o politicamente correto dita que o respeito religioso justifica tudo – inclusive o ódio a homossexuais, a proibição de transfusões de sangue ou atentados terroristas.</p></blockquote>
<p>A expressão &#8220;politicamente correto&#8221; é perigosa aqui. Todo dia vejo religiosos dizendo que &#8220;o politicamente correto impede que possam se manifestar a respeito de seu descontentamento diante de homossexuais e que estão sendo desrespeitados&#8221;.  Andam utilizando o &#8220;politicamente correto&#8221; para denominar qualquer coisa com que não concordem. Não acho, como esses idiotas, que o respeito religioso justifica tudo. Sem falar que existem movimentos ganhando voz, projetos sendo votados, toda uma resistência que começa a se organizar contra esse tipo de postura, a despeito das religiões. Mais uma vez, não precisávamos de Dawkins para isso.</p>
<p>Outro ponto: coragem, cara pálida? Sério que você acredita haver algo de revolucionário apenas na publicação desta obra? E todos os ótimos autores ateus que escreveram obras fantásticas (as que eu defendo) no passado? O momento histórico era mais favorável para eles do que para Dawkins? Óbvio que não.</p>
<p>Também me chama atenção essa frase, da contracapa do livro: &#8220;levar os religiosos por inércia a pensar racionalmente a sua crença&#8221;. Aqui está meu ponto, e aqui eu digo que Dawkins falha, de forma grosseira até. Na verdade, a discussão sobre a (in)existência de Deus, científica, comprovada no mundo natural, &#8220;real&#8221;, pouco importa aí. O comportamento religioso, a despeito da definição corrente (e correta) que temos de religião, não está fundamentado na existência de Deus no mundo físico, mas em uma idéia, um conceito. E te digo que os &#8220;fatos&#8221; apresentados por Dawkins não fazem cócegas na influência exercida por essa &#8220;metáfora divina&#8221; sobre as pessoas.</p>
<p>Como podemos verificar facilmente, 97,48% dos religiosos (DataEu) pouco se importam com fatos. Se, ao cavar um poço em seu quintal, um crente topar com o esqueleto fóssil de um dinossauro, dirá que o demônio colocou aquilo ali para testá-lo em sua fé. E isso se dá porque a força de Deus enquanto conceito é enorme e está localizada em instâncias inconscientes e constitutivas de todos nós. Žižek, comentando alguns postulados de Lacan a respeito, lembra que &#8220;o ateu moderno pensa saber que Deus está morto; o que ele não sabe é que, inconscientemente, continua a acreditar em Deus&#8221;. Ou seja, tanto faz se o enfoque for metafísico, científico ou filosófico, estamos sempre girando em torno deste conceito, percebe? Assim como Dawkins.</p>
<p>A idéia da existência da divindade é representação simbólica de uma metáfora paterna, do &#8220;suposto saber&#8221; do Outro que organiza a estruturação neurótica de fieis e ateus (Lacan). Eu precisaria de um texto enorme para explicar o mecanismo, e este aqui já está bem grande, mas ocorre que nossa sociedade se organiza a partir dessa estrutura. Resumidamente, as pessoas identificam neste Deus a manifestação &#8220;externa&#8221; de uma instância vigilante, julgadora e vingadora para conseguirem um alívio &#8220;interno&#8221;, pois essa instância sem essa identificação externa &#8220;divina&#8221;, vivendo em cada um de nós, seria ainda mais tirânica do que já é. Dostoiévski disse através de um personagem: &#8220;Se Deus não existe, tudo é permitido&#8221;. Lacan retruca: &#8220;Se Deus não existe, tudo é proibido&#8221;, pois não teríamos essa &#8220;válvula de alívio interno&#8221; <em>(o neurótico &#8220;descansa na metáfora paterna&#8221; &#8211; Contardo Calligaris)</em>. Do ponto de vista do crente, ocorre o inverso: &#8220;Se Deus existe, tudo é permitido&#8221;, pois o crente se coloca como instrumento divino Dele, podendo qualquer coisa, qualquer abuso, que estará automaticamente perdoado. O problema é que, para que isso ocorra, pouco importa se <em>a verdade está lá fora</em> ou não. Este é meu ponto: não é uma questão de conseguir &#8220;matar&#8221; Deus no mundo real (a realidade física e mensurável pelos métodos científicos tradicionais pouco importa aqui, pois sabemos que a (in)existência de Deus não pode ser provada ou negada assim). A necessidade é entendermos melhor a atuação deste conceito em nossa constituição, a força desta idéia.</p>
<p>Você termina seu texto de forma muito bonita, dizendo:</p>
<blockquote><p>É uma cruzada, concordo. Mas que tem de mais encantador aquilo que justamente creditamos como divino: nossa inteligência.</p></blockquote>
<p>Gosto disso, mas repito que não precisamos de Dawkins para tanto. Quando Nietzsche matou Deus, o fez para que o <em>Übermensch</em> (super homem, supra homem) pleno de possibilidades e potencialidades, que reside em cada um de nós, tivesse longa vida. Nossa cruzada real é a busca por esse &#8220;homos superior&#8221; citado pelo filósofo. O que podemos fazer para nos libertarmos realmente desta tirania, por vezes sádica, impregnada em cada um de nós? É necessário calar essa instância de autoridade, ou compreendê-la e mudar nossa relação com ela? (assunto para outra discussão conceitual). Acredito que este questionamento é muito mais político, filosófico e ético do que científico. Daí minha opinião de que Dawkins, ainda que possa ter ótimas intenções, já começa errando o enfoque. É como pegar o mito dos vampiros e fazê-los brilhar e&#8230;</p>
<p>Recomendação de leitura: &#8220;Deus está morto, mas Ele não sabe: Lacan brinca com Bobók&#8221;, do já citado Žižek.</p>
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		<title>Proteção?</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jan 2011 13:05:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;A PM na rua, nosso medo de viver um consolo é que eles vão me proteger a unica pergunta é: me proteger do que?&#8221; &#8211; &#8220;Proteção&#8221;, Plebe Rude (1986). Moro na periferia de uma cidade da Grande São Paulo. Recentemente voltava para casa junto de meu pai, de carro, durante a madrugada, e encontramos uma [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;A PM na rua, nosso medo de viver<br />
um consolo é que eles vão me proteger<br />
a unica pergunta é: me proteger do que?&#8221; &#8211; &#8220;</em>Proteção&#8221;, <strong>Plebe Rude</strong> (1986).</p>
<p>Moro na periferia de uma cidade da Grande São Paulo. Recentemente voltava para casa junto de meu pai, de carro, durante a madrugada, e encontramos uma viatura da Polícia Militar. Compartilhamos uma tensão absurda, eu e ele. Foram longos e horríveis minutos de silêncio e desconforto. Em determinado momento perguntei a meu pai se a viatura estava nos seguindo e fiquei realmente preocupado com a resposta afirmativa. O alívio veio apenas quando entramos na rua de casa e os policiais (eram dois) seguiram por outro caminho.</p>
<p>A cena é interessante e dá o que pensar por vários motivos. O mais óbvio deles é que não tínhamos drogas no banco traseiro ou um cadáver no porta-malas (vocês terão de acreditar em mim). Ou seja, não havia um motivo direto para temer a presença dos policiais. Pelo contrário, numa região em que já foi comum a ação de &#8220;justiceiros&#8221; (<em>pés-de-pato</em>, quem conhece o termo?), deveríamos ter medo, por exemplo, de um Opala 73 preto com as luzes apagadas, e não de uma viatura policial que supostamente estava ali para &#8220;servir e proteger&#8221;.</p>
<p>Fiquei alguns dias pensando a respeito e não foi difícil concluir que a questão não era objetiva ou lógica. Não importavam aqueles policiais especificamente ou a razão deles estarem ali, mas o lugar que a própria instituição Polícia ocupa em nosso imaginário.  Quando ocorreu a redemocratização, a restauração do nosso estado de direito, eu já tinha 10 anos de idade. Isso significa que estive às voltas com a ditadura e suas conseqüências reais e simbólicas durante toda a minha primeira infância, ainda que eu não tenha vivido o período mais crítico da repressão perpetrada pelo regime militar.</p>
<p>Ora, <em>dizem </em>que é neste período de nossa vida que se inscrevem as regras determinantes de nossa relação com o mundo, não? Minha mãe dá conta de que eu morria de medo de policiais e que me escondia sempre que um vizinho que trabalhava na PM aparecia. Deixando de lado questões pessoais com figuras de autoridade que poderiam ter outra explicação, fica fácil pensar este meu medo dentro do contexto daquela época. Meu pai e tios eram obrigados a andar com um documento, a carteira profissional, probatório de que eram &#8220;trabalhadores e homens de bem&#8221;. O indivíduo revistado durante uma <em>blitz</em> que não apresentasse este documento corria o risco de ser humilhado ou espancado, e todos os adultos do meu convívio conheciam um caso do gênero. Grupos de amigos evitavam se reunir nas ruas, porque o regime detestava aglomerações, e meu pai contava de pessoas conhecidas que haviam entrado naquelas veraneios da polícia para nunca mais voltar. A Polícia com a qual primeiro tive contato era a representante mais próxima e direta de um regime totalitário covarde. Simples assim.</p>
<p>Minha adolescência se deu em outro contexto. A segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90 foram marcados por um verdadeiro desbunde. Aparentemente as pessoas eram livres de novo. Livres para respirar, &#8220;livres para voar&#8221;, como numa telenovela da época. Parece exagerado e utópico, mas era assim que nos sentíamos. Era agradável poder discutir mesmo o que havia de pior em nossa sociedade. &#8220;Brasil, mostra a tua cara&#8221;. Foi uma alegria indizível acompanhar o processo eleitoral de 1989 (mesmo sem poder votar ainda). Éramos puro otimismo e esperança. Sabemos o que aconteceu depois, mas o próprio processo de <em>Impeachment</em>, marcado pela mobilização popular, foi um sopro de esperança. Ser um &#8220;cara pintada&#8221; significava sentir o poder nas próprias mãos, significava acreditar que poderíamos mudar as coisas, interferir no processo. Olhávamos para o futuro com otimismo.</p>
<p>Ocorre que esse futuro chegou e se mostrou bem menos colorido. Faço essa reflexão toda pensando num fato ocorrido ontem, quinta-feira, 13 de janeiro. Um grupo de estudantes se reuniu no centro da cidade para protestar contra o aumento do preço das passagens de ônibus, bem acima da inflação. O vídeo (logo abaixo, não deixe de ver) mostra essas pessoas sendo violentamente agredidas, sem motivo aparente.</p>
<p>O que me chama atenção é que, exatamente como nos tempos da ditadura, as pessoas simplesmente não repercutem o fato. Há 30 anos havia o medo, a repressão e a censura. Hoje a equação me parece mais equilibrada, com aumento considerável da apatia e da indiferença.</p>
<p>Mas uma coisa precisa ficar clara: a bala de borracha disparada contra um sujeito que está fazendo uma manifestação pacífica em nome de uma causa que considera justa não atinge apenas ele. O ferimento é nosso, a ofensa é contra cada um de nós. Feridos e doloridos estão a sociedade civil e o estado de direito. O <em>spray</em> de pimenta faz lacrimejar os olhos da justiça e da democracia. O policial que agride manifestantes está obedecendo ordens diretas de um governo que busca legitimação também na vigilância, e que no mínimo está sendo conivente com essa violência que tenta nos fazer calar.</p>
<p>O agressor covarde provavelmente é um desequilibrado, mas também é mensageiro. É portador de um recado e de um discurso ao qual devemos prestar muita atenção. Ao que parece, manter a &#8220;ordem&#8221; a qualquer custo é mais importante que servir e proteger. Dói perceber que tanto tempo se passou e esse meu receio e desconforto diante da Polícia continuem tendo razão de ser, fora dos domínios da minha fantasia.</p>
<p>De qualquer forma, não devemos deixar que o medo e a indiferença calem dois questionamentos importantes, que cabem a cada um de nós: é essa ordem, esse estado de coisas, que queremos para nós e para nossos filhos? Quem está sendo realmente protegido?</p>
<p><object classid="d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/2ExBjlX8-wE?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/2ExBjlX8-wE?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: left"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=2ExBjlX8-wE">Repressão brutal da PM contra estudantes em SP</a></p>
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		<title>Vá visitar sua avó, se quiser.</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Dec 2010 05:43:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>

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		<description><![CDATA[Pense na situação que a maioria de nós conhece de nossa infância: a pobre criança que, numa tarde de domingo, tem de visitar a avó em vez de ter permissão para brincar com os amigos. A mensagem do pai antiquado e autoritário para a criança relutante teria sido: &#8220;Não me importa o que você sente. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Pense na situação que a maioria de nós conhece de nossa infância: a pobre criança que, numa tarde de domingo, tem de visitar a avó em vez de ter permissão para brincar com os amigos. A mensagem do pai antiquado e autoritário para a criança relutante teria sido: &#8220;Não me importa o que você sente. Simplesmente cumpra o seu dever, vá à casa da sua avó e comporte-se lá!&#8221;. Nesse caso, a situação da criança não é nada má: embora obrigada a fazer algo que claramente não quer, conservará sua liberdade interna e a capacidade de (mais tarde) se rebelar contra a autoridade paterna. Muito mais difícil teria sido a mensagem de um pai &#8220;não autoritário&#8221; pós-moderno: &#8220;Você sabe como sua avó o ama! Mesmo assim, não quero obrigá-lo a nada &#8211; vá apenas se realmente quiser!&#8221;. Todas as crianças que não sejam tolas (isto é, a maioria delas) reconhecerão imediatamente a armadilha dessa atitude permissiva: sob a aparência da livre escolha há uma exigência ainda mais opressiva que aquela formulada pelo pai autoritário tradicional, a saber, uma injunção implícita não só de visitar a vovó, mas de fazê-lo voluntariamente, pela livre vontade da criança. <strong>Uma falsa livre escolha como essa é a injunção obscena do supereu </strong><em>[grifos meus]</em>: ele priva a criança até de sua liberdade interior, prescrevendo não só o que deve fazer, mas o que deve querer fazer.</p></blockquote>
<p>- <strong>Slavoj Žižek</strong> em <em>&#8220;Deus está morto, mas Ele não sabe&#8221; </em>(Como Ler Lacan, Zahar, 2010)</p>
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		<title>Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Dec 2010 22:42:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não são somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não são somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você &#8211; eles não sabem, o terrível é que não sabem &#8211; dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.  - <strong>Julio Cortázar</strong> em <em>Histórias de cronópios e de famas. </em></p>
<p>PS &#8211; Logo eu volto.</p>
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		<title>Pela Liberdade e Democratização da Comunicação*</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 14:48:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[blogosfera]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[*Manifesto importante e ainda extremamente atual, a despeito da morte do condomínio verbeat. Retirado daqui. Quando uma pessoa vai presa por manter um blog, isso lhe incomoda? Não há quem não conheça a palavra &#8220;liberdade&#8221;. Mas, sozinha, ela quer dizer muito pouco; liberdade precisa de um objeto para o qual ser livre. Ela surge de algo que [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>*<strong>Manifesto</strong> importante e ainda extremamente atual, a despeito da <a href="http://www.verbeat.org/blogs/bereteando/2010/11/de_atelogos_e_cinzas.html">morte do condomínio verbeat</a>. Retirado <a href="http://www.verbeat.org/com/por/index.htm">daqui</a>.</em></p>
<p>Quando uma pessoa vai <span style="font-size: small"><strong>presa</strong></span> por manter um blog, isso lhe incomoda?</p>
<p>Não há quem não conheça a palavra &#8220;liberdade&#8221;. Mas, sozinha, ela quer dizer muito pouco; liberdade precisa de um objeto para o qual ser livre. Ela surge de algo que cerca, cerceia. Conquistamos nossas liberdades à medida em que conhecemos seus contrapontos; e é preciso reinventá-las todos os dias. Se cessarmos essa procura, ficamos acomodados, e assim a liberdade termina. Redescobrimos sua necessidade dia após dia &#8211; afinal, não sabemos de tudo. Se soubéssemos, talvez muita coisa fosse diferente. Saber é importante e todos deveríamos ter o direito de saber das coisas, não?</p>
<p>Pois temos. Isto se chama <span style="font-size: small"><strong>liberdade de informação</strong></span> &#8211; e garante que um indivíduo receba informação de outro. Isso é suficiente? Nem sempre, porque para que a informação chegue é preciso termos assegurada nossa <span style="font-size: small"><strong>liberdade de expressão</strong></span> &#8211; o direito que um indivíduo tem de manifestar-se livremente, desde que não atente à moral e integridade física de outro indivíduo. Logo, as duas andam de mãos dadas, e assoviando. Elas reafirmam que nós, pessoas &#8220;livres&#8221;, temos o direito de receber e de produzir informação. É o que basta? Não. Não adianta nada eu expressar minha opinião no banheiro ou numa sala vazia; da mesma maneira que é inútil ficar com o ouvido alerta na varanda de casa e a informação não chegar. Porque há alguma coisa aí no meio: de fato, é O MEIO. A mídia; o que está entre a informação criada e a informação recebida. Entre cada um de nós. Numa conversa pelo celular, a mídia é o aparelho de telefone. Quando assistimos o telejornal da noite, a mídia é a TV &#8211; e, antes dela, a imprensa. Que está entre o que acontece de fato e o que é notícia. Assim, se a imprensa não fosse livre, nada adiantaria sermos livres para produzir e receber informações. Para nossa sorte, na maioria dos países conquistou-se também essa liberdade: a de <span style="font-size: small"><strong>imprensa</strong></span>.</p>
<p>Tendo o produtor, o meio e o receptor livres diante do fluxo da informação, então podemos conquistar a <span style="font-size: small"><strong>Liberdade de Comunicação</strong></span>.</p>
<p>Hoje, eu e você somos livres para informar e sermos informados, num fluxo que trafega por meios livres. Mas não vivemos num mundo livre. Liberdade por si só não é suficiente, porque ela não pressupõe naturalmente outro conceito importante: <span style="font-size: small"><strong>democracia</strong></span>. A mídia tradicional (rádios, TVs, jornais, portais web) está longe de ser proporcional à quantidade de informação produzida, tanto quanto ao número de indivíduos que as recebem. As pontas são infinitamente maiores que os meios existentes. Há um estrangulamento. E quando isso acontece, alguma coisa fica de fora do fluxo. É isso que a mídia tradicional faz: filtrar. Selecionar informações para distribuí-las ao maior número de pessoas possível &#8211; donde o termo &#8220;meios de comunicação de massa&#8221;. Poucas informações produzidas são veiculadas, poucos produtores tem poder para comunicar o que querem, e poucas opções temos de receber o que de fato queremos. E se não recebemos, a informação existe? De fato, sim; na prática, não. É o sujeito que grita na sala vazia. Sujeito que talvez tenha coisas relevantes a dizer. Todos nós temos coisas a dizer, sim. Por que não teríamos?</p>
<p>No modelo vigente, a mídia escolhe por nós. Ela cerceia a própria liberdade que tanto precisa, em nome de uma efetividade &#8211; muitas vezes, manchada pela face comercial que a viabiliza (quando não é a própria razão de existir).</p>
<p>Mas eu quero falar. Quero falar o que eu quiser. E falar para quem eu quiser. Para quem quiser me ouvir e que vai poder me achar. Quero ouvir. Ouvir o que eu quiser. E ouvir de quem eu quiser. De quem quiser me falar e que vou poder encontrar. Essa é a verdadeira liberdade e democracia da comunicação. Isso, os meios de massa jamais poderão oferecer, mas a Internet sim: com o<span style="font-size: small"><strong>blog</strong></span>. Uma ferramenta pessoal, acessível, de baixo custo, sem intermediários, apoiada em uma mídia instantânea e de alcance global.</p>
<p>Não apenas o diário virtual, pense de novo: <span style="font-size: small"><strong>Blog</strong></span> é o suporte tecnológico de uma revolução na exposição de idéias, na distribuição de informação, na <span style="font-size: small"><strong>democratização da comunicação</strong></span>. Na internet, qualquer sujeito que quiser exercitar sua liberdade de expressão encontra um sujeito exercitando sua liberdade de informação. Isto é liberdade. Isto é democracia. Esse é o direito que deve ser assegurado.</p>
<p>Não há confronto com a mídia de massa. Pelo contrário; o que queremos é que se garanta o mesmo poder e a mesma liberdade que é dada à imprensa para o indivíduo. Da mesma forma que já compartilham democraticamente estas duas esferas &#8211; mídia tradicional e blogs &#8211; a própria constituição da informação e seu desencadeamento. Que a blogosfera ande junto com aquela imprensa que é responsável e idônea! A informação da grande mídia, por exemplo, tem agora um local onde pode ser debatida, contestada ou corroborada. Como disse Jeff Jarvis, do blog BuzzMachine, sobre o escândalo que derrubou o âncora Dan Rather, da rede norte-americana de notícias CBS, durante as eleições presidenciais de 2004: &#8220;Nós costumávamos pensar que as notícias haviam terminado depois de impressas, mas agora, é quando elas começam&#8221;.</p>
<p>Porém, mais do que amplificar a imprensa, os blogs crescem ainda mais em relevância quando tornam-se um <span style="font-size: small"><strong>canal alternativo</strong></span>, onde circulam as informações que a mídia tradicional não cobre. A liberdade impulsiona para a descentralização: ganha o indivíduo. Ganhamos todos nós.</p>
<p>Infelizmente, nem todos entendem assim. No Oriente, por exemplo, ações extremas já foram tomadas para combater a liberdade &#8220;excessiva&#8221; que os blogs trazem consigo: no Irã, blogueiros foram presos por divulgar nomes de jornalistas cassados e presos; no Bahrein, por &#8220;difamar o rei&#8221;. Também sanções são aplicadas na China, onde todo o acesso à internet é rigorosamente controlado. Países longe de nós? Nem tanto: aqui no Ocidente, onde a democracia parecia ser a suprema bandeira, o autor de um blog foi obrigado a identificar suas fontes pela justiça norte-americana, ativada por um processo da Apple. Antes disso, no Brasil, um blogueiro foi obrigado a retirar sua página do ar por decisão de uma juíza; nesse caso, uma empresa de recursos humanos foi insultada na caixa de comentários, por um terceiro. O processo ficou conhecido por levantar a discussão entre o Direito e os sistemas de publicação pessoal no Brasil.</p>
<p>O tema é polêmico por tratar-se de um cerceamento autoritário e que demonstra falta de conhecimento sobre os blogs. Se é claro que o indivíduo é responsável pelas opiniões que emite e os fatos que apresenta &#8211; como em todas as esferas, logicamente -, é preciso tomar cuidado para que regras e leis não tornem a atividade improdutiva, perigosa ou por demais delimitada. Em última instância, blogs são páginas <span style="font-size: small"><strong>pessoais</strong></span> e não mídia tradicional. Responsabilidades devem ser cobradas onde se aplicam, no âmbito correto, sem confusão entre a esfera pública, comercial e privada. Um blog será sempre a expressão de uma idéia pessoal, individual, e que devia ser livre, não? Embora devamos evitar uma normatização que pode esterilizar e delimitar esse espaço, a blogosfera ligada ao Direito já começa a debater a questão, e alerta para o que pode e não pode ser enquadrado como crime &#8211; liberdade, afinal, não significa bandalheira. Mas bloquear o livre acesso aos blogs, ou tentar limitar seu conteúdo, é um atentado contra todas as liberdades já conquistadas. Represar essa nova liberdade de comunicação é um passo tardio dos que procuram impor uma única via.</p>
<p>É preciso discutir essa nova forma de comunicação. <span style="font-size: small"><strong>Popularizar</strong></span> para atingir o maior número possível de pessoas. Disseminar a informação para que se evitem julgamentos errôneos. Também é necessário cultivar um senso de fair play entre os blogueiros; incentivar a capacidade individual dos leitores para separar o legítimo do ilegítimo e buscar mais de uma fonte para a mesma história. A própria natureza colaborativa e de interligação dos blogs pode estabelecer esse ambiente de auto-gestão de credibilidade. Se um blog mal-intencionado ou mentiroso é desmascarado, será banido pela própria comunidade; aqui, a relação é um-a-um, direta. São pessoas reais com sentimentos reais. E ninguém gosta de ser feito de trouxa.</p>
<p>Dan Gillmor, jornalista norte-americano, papa dos blogueiros, defensor do citizen journalism e autor do livro We the Media, julga a blogosfera como uma &#8220;câmara de eco&#8221;. Para Gillmor, as idéias movem-se por ela como vírus. É impossível pará-las de todo, e o único impedimento de uma &#8220;contaminação&#8221; é o querer do sujeito, que pode passar de simples receptor passivo a produtor e crítico num piscar de olhos. O nascimento, a legitimação e o fortalecimento de uma nova via de informação depende apenas que cada cidadão coloque em prática a prerrogativa de suas liberdades conquistadas. O aparato tecnológico está disponível, e <span style="font-size: small"><strong>onde não estiver, deve ser levado</strong></span>. Cercear, normatizar e delimitar esse suporte, ou o conteúdo nele contido, é aprisionar o indivíduo no momento em que ele mostra sua força como indivíduo. Incentivar e lutar pela liberdade de comunicação é criar uma forma inédita para a produção, a compreensão e a discussão da informação. E se hoje a informação é o poder, nunca ele esteve tão próximo de cada um de nós, livre e democraticamente. Não vamos, agora, abrir mão disso.</p>
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		<title>Sobre turminhas e igrejas</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Sep 2010 01:27:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[psicanálise]]></category>

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		<description><![CDATA[Falo da psicanálise, mas isso serve para diversos setores da atividade humana. A escolha de uma &#8220;linha&#8221; de atuação está muito além de questões meramente técnicas ou teóricas, ou das vaidades de cada um. Trata-se de posicionamento ético e, sem dúvida alguma, político. Trata-se do reconhecimento sincero de variáveis que nos governam e de limitações [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Falo da psicanálise, mas isso serve para diversos setores da atividade humana. A escolha de uma &#8220;linha&#8221; de atuação está muito além de questões meramente técnicas ou teóricas, ou das vaidades de cada um. Trata-se de posicionamento ético e, sem dúvida alguma, político. Trata-se do reconhecimento sincero de variáveis que nos governam e de limitações que podem ser dolorosas, mas principalmente da delimitação do lugar que queremos ou podemos ocupar diante do outro, do sujeito para quem emprestaremos nossa escuta.<br />
Infelizmente, as pessoas tendem a conferir às teorias que fundamentam sua prática um status de verdade que chega a ser risível. Pensam ter encontrado A resposta onde apenas deveriam ter achado a forma de fazer mais e melhores perguntas. Aprendi a desconfiar demais das certezas, pois quanto mais estudo sei que menor é o meu saber (e isso assusta menos do que parece, acreditem).<br />
Pior é quem acredita ter achado a &#8220;verdade&#8221; e passa a tentar converter o próximo; evangelizar as mentes que ainda vivem na penumbra do desconhecimento da &#8220;boa nova&#8221;. Interessante que muitos dos que fazem isso ainda reivindicam o status de cientistas&#8230;</p>
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		<title>Psicanálise e Neurociências</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Sep 2010 16:08:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Donizetti</dc:creator>
				<category><![CDATA[psicanálise]]></category>

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		<description><![CDATA[Com relação ao debate com as neurociências, sem dúvida, Lacan é importante, como Foucault e Derrida. Há nele uma reflexão filosófica, uma teoria do sujeito, uma teoria da liberdade que mostra que não somos submetidos a comportamentos. Mesmo sendo determinados pelo inconsciente, temos acesso a algo da ordem inconsciente por efeito da linguagem, somos livres [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Com relação ao debate com as neurociências, sem dúvida, Lacan é importante, como Foucault e Derrida. Há nele uma reflexão filosófica, uma teoria do sujeito, uma teoria da liberdade que mostra que não somos submetidos a comportamentos. Mesmo sendo determinados pelo inconsciente, temos acesso a algo da ordem inconsciente por efeito da linguagem, somos livres na escolha e não reduzidos a tratamentos mecânicos. Quando olho para a história da ciência, vejo que há sempre algo que escapa à lógica da natureza científica. Não poderemos ir tão longe na abordagem neurocientífica do comportamento humano, mesmo se amanhã descobrirmos que todas as nossas emoções, os nossos sentimentos e o nosso psiquismo são apenas algo químico ou genético. Iremos, sem dúvida, avançar no domínio da patologia, mas não teremos muitos meios para o reducionismo, porque o homem é produzido por sua história, por seu meio ambiente, por seu psiquismo; não existe apenas um determinante. <strong>Penso que a ciência revelará muito mais da complexidade que da simplificação, ainda que o cientificismo atual procure simplificar tudo.</strong></p></blockquote>
<p> &#8211; <strong>Elisabeth Roudinesco</strong> citada por <strong>C. Lúcia M. Valladares de Oliveira</strong> em <em>&#8220;Atualidade de um trágico barroco&#8221;</em> (Revista Mente e Cérebro: Memória da Psicanálise n.7; São Paulo: Duetto Editorial, 2009). Os grifos são meus.</p>
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