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Marcos Donizetti
Submarino.com.br

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Oferecer a escuta ao sujeito é posicionamento político.

Na virada do séc. XIX, num momento da história da psiquiatria em que os médicos se preocupavam apenas em classificar a doença mental, ele [Jung] ofereceu uma escuta diferenciada para os pacientes esquizofrênicos. [...] Ao propor um resgate do sentido nas produções do inconsciente, ele percebeu que o delírio tinha um significado e podia, portanto, ser interpretado. Ou seja, seria possível propor um tratamento psicológico para a psicose. Essa é uma contribuição significativa para a psicologia, vale dizer extremamente atual, pois contradiz a prática de uma psiquiatria biológica e organicista, que tenta invalidar a subjetividade do sujeito ao reduzir as produções delirantes a intervenções bioquímicas e cognitivas, em função de uma concepção puramente neuronal da doença mental. Tal concepção esvazia a potência do inconsciente e da clínica como espaço que é marcado também por um posicionamento político e pode ou não oferecer ao paciente um lugar de sujeito diante de seu mundo psíquico e social.

Santina Rodrigues, na Revista Psicoterapias.

Twitcam

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O assunto dos últimos dias é o twitcam. Não a ferramenta em si, mas casos diretamente relacionados a ela. É provável que todos conheçam a polêmica gerada pela exposição de um casal de menores de Porto Alegre para uma plateia de milhares de pessoas, ou a dos “meninos da vila” seminus, xingando torcedores. Como as questões relacionadas ao “alvinegro praiano” não me interessam, vou me ater ao primeiro caso.
Um garoto de 16 anos e uma menina de 14 anos fazem um show erótico numa noite de domingo, prometendo maior ousadia quanto maior fosse o número de expectadores. Os participantes espalham a notícia rapidamente e os jovens cumprem o trato. O vídeo gravado é disponibilizado em sites de download e a repercussão torna-se provavelmente muito maior do que eles imaginavam. Muitos podem ser responsabilizados pela divulgação e download do vídeo (o ECA trata da questão), o que iniciará uma onda de discos rígidos destruídos, “a grande queima de HDs”, segundo meu amigo @gravz.
Mas vou deixar as piadas e as questões legais de lado. Em primeiro lugar, vejo surgir a natural e enorme indignação da sociedade. Cansei de ouvir nos últimos dias que “a juventude está perdida” e que “a internet precisa de mais controle e regulamentação”. Amigos perguntam, com razão, o que aconteceu com “essas crianças” para que elas perdessem as noções de privacidade e intimidade, e como podem fazer algo tão absurdo. Minha resposta nesta hora costuma deixá-los de olhos arregalados: não só não há nada de absurdo no ato em si como esse casal foi absolutamente coerente, respondendo da maneira possível ao discurso que dá mostra do que a sociedade espera deles.
escrevi aqui sobre um determinado lugar ocupado pelo adolescente em nossa trama social, e de que forma eles percebem os discursos (principalmente implícitos) contidos nela. Este caso específico é uma boa oportunidade de entendermos o que está envolvido não só neste ato, mas na própria existência de ferramentas como o twitcam, e como nos relacionamentos com elas.
As tais redes sociais vêm sendo vendidas (o termo é exatamente esse) como um novo paradigma de espaço para convivência e, principalmente, geração e compartilhamento de “conteúdo” e consequente democratização do conhecimento. Acho muito bonito e tenho esperanças de que isso acabe acontecendo mesmo, mas a coisa toda é bem mais complexa. Participamos de redes sociais que mostram ao mundo as músicas que ouvimos e as séries que assistimos; as fotos do fim de semana com os amigos, os filmes que vemos e os restaurantes em que comemos, sem falar nas cidades que visitamos. Existem sites em que as pessoas podem dizer anonimamente o que pensam de você ou te fazerem perguntas quaisquer, sem falar naquele que avisa ao mundo quando você entra na lavanderia. Há algo de imperativo aí, diferente do que costumava ser. Em lugar do “ter para ser”, temos o “mostre para ser”. Em nossa sociedade, hoje, qualquer possibilidade de gozo e, num sentido mais amplo, de existência, está condicionada e mediada pelo verbo mostrar.
Nós nos beneficiamos com isso? Talvez. Alguns encontram lugar nesse ambiente de espetacularização do sujeito, outros se tornam cada vez mais alheios e solitários. Enfim. Do ponto de vista individual não há muito a dizer, mas do ponto de vista coletivo, vale perguntar quem se beneficia da visibilidade total. Penso aqui no processo de reificação do sujeito. O indivíduo superexposto perde sua condição subjetiva, ainda que o discurso seja de valorização do “eu”, com enorme apelo narcísico. Como mercadorias, ganhamos um índice de valor atrelado ao que conseguimos exibir ao mundo, e a moeda que dá conta deste valor, que permite medi-lo, é o avatar. No momento em que conta apenas o que é visto, a imagem de alguém num site, acompanhada de seu número de expectadores, parece ser a maneira mais tangível de quantificar seu valor e de delimitar sua existência. E quem se apropria deste “capital social”, como não podia deixar de ser, é a própria ordem comercial e econômica. Nosso perfil em redes sociais, antes de qualquer coisa, é moeda. Analistas de “social media”, salvo poucas exceções, estão muito mais preocupados com o potencial de troca, de capitalização das redes, do que com seu potencial “gerador de conteúdo e conhecimento”. Assim como os jovens da twitcam, eles estão respondendo a um apelo.
Voltando a este casal de adolescentes, penso em indivíduos que estão se utilizando das armas que possuem para fazer parte deste sistema. Ora, se o reconhecimento e a própria existência estão condicionados à participação em uma cadeia de imagens, é natural que o adolescente faça o que for possível para estar ali. O preço de não existir, de não ser visto, é muito mais alto do que o de ter seu avatar transformado em mercadoria ou de ver sua privacidade perdida. Afinal, não há qualquer valor atrelado à privacidade.
Mas a “arma” precisa ser o sexo, o desejo? Bem, não sejamos hipócritas: ainda que exista toda a moralidade que prega que o jovem deve ser protegido de seu próprio desejo (nem os adultos sabem se reconhecer desejantes), principalmente no caso das meninas (machismo), o corpo sempre foi um dos primeiros passaportes de acesso ao mundo “adulto”. O sexo mostrado ao vivo na câmera, de certa forma, é uma versão atualizada e mais explícita do baile de debutantes. Simplesmente outra maneira de mostrar ao mundo que “a menina já ficou mocinha”.
Não fico chocado ou indignado, não fico preocupado com nossas futuras gerações por culpa do que estes dois fizeram. Ainda que eu entenda a indignação, a exploração por parte da mídia e a mobilização de setores pedindo mais controle da internet (para variar), minha preocupação real é com este discurso que chama a todos para esta exposição selvagem que acaba nos privando da própria subjetividade. Precisamos fazer uma escolha: devemos ser sujeitos de nosso lugar no mundo ou avatares, moedas a serem exploradas em seu potencial de troca, de produto? Quando decidirmos isso, as crianças e adolescentes entenderão a mensagem.

Realidade e ficção

‎”Foi fundamental, na minha formação, que a ideia de representatividade entre o mundo e a literatura fosse dizimada. Ou entre a realidade e a ficção, que fica mais bonito dizer assim. Só é possível enxergar uma obra como mímese da realidade quando se acredita que a realidade, afinal, é transparente e possível de ser abarcada, que há um conjunto de valores e conhecimentos previamente dominados e que a literatura, sendo capaz de reproduzi-los e confirmá-los, também pode ser plenamente compreendida.Mas se você não for um iluminista, como é meu caso, pensará que a realidade é complexa demais para ser inteiramente condensada em objeto e apreendida pelo sujeito, que é impossível esgotá-la, que com frequência somos colocados diante de impasses e indeterminações que eliminam, enfim, as polpudas e tolas certezas.”

Aline, em O gosto pelas lacunas.

Frature-se

“Não dói a ausência. Dói isso que fica. Esse processo penoso que chamamos de luto não é falta, é presença. A chaga, a fratura, o órgão dilacerado, é esse vulto, essa imagem difusa que não nos deixa, a permanência do que não existe mais. O último “eu te amo” dito é um fêmur que se parte em dois e que rasga o músculo. O primeiro segurar na mão dela é a clavícula exposta quando tudo termina. O beijo que você relembra a cada fechar de olhos é um maxilar feito em pedaços”. – fratura exposta, por Marcos Donizetti, texto meu no Don’t touch my moleskine.

Os Gadgets e os Desdichados

Na clínica, a depressão não existe; o que encontramos são estados depressivos que ocorrem em algum momento na vida de um indivíduo e apresentam uma história subjetiva precisa.
Por um lado, parece haver uma generalização - todos deprimidos! -, uma vez que a doença é “mais encontrada”. Esta última versão do Simão Bacamarte localiza essa nova forma de alienação mental mesmo lá onde ela não ousa mostrar sua cara, lá onde ela está “mascarada”. Por outro, há um combate ferrenho à depressão – Abaixo os deprimidos! -, por ela ir contra os ideais da produtividade e contra o imperativo da saúde e do bom humor que caracterizam nossa sociedade utilitarista e de consumo. Como resultado, o número crescente de pessoas que tomam antidepressivos e de médicos e paramédicos que os receitam, sustentados pelo discurso da ciência que divulga os resultados das pesquisas sobre os neuro-hormônios. Porém até hoje não se descobriu o substrato anatômico cerebral das paixões do homem e do mal-estar do sujeito. A novos males, novos remédios? Ou a novos remédios, novos males? A quantidade e variedade de antidepressivos que deságuam no mercado e a facilidade do consumidor em ter acesso a eles fazem da hétero e da automedicação um solo propício para uma nova toxicomania que foraclui a implicação do sujeito no estado depressivo.
A multiplicação dos deprimidos no fim do século XX não poderia ser encarada como um sinal dos tempos? A falta de uma perspectiva mais igualitária, a queda dos ideais revolucionários, o crescente desemprego, a competitividade em um mercado cada vez mais feroz associando-se aos imperativos de gozo de uma sociedade cada vez mais produtora de gadgets, que acenam com a promessa de satisfazer o desejo – tudo isso pode efetivamente contribuir para o estado depressivo de um sujeito desorientado em relação a seu desejo, perdido de seus ideais. Vivemos sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se se cercam mais de outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia; suas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na recepção e manipulação de mercadorias e mensagens. Essa deterioração dos laços sociais e o empuxo ao prazer solitário, realizando a economia do desejo do Outro, estimulam a ilusão da completude não mais com um par, porém com um parceiro conectável e desconectável ao alcance das mãos. O resultado não pode ser senão a decepção, a tristeza, o tédio e a nostalgia do Um em vão prometido.

Antonio Quinet. “Melancolia”, em Psicose e laço social: esquizofrenia, paranóia e melancolia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

#ficaadica

Nossa atenção se dirigiu para a contratransferência que se estabelece no médico em decorrência da influência que exerce o paciente sobre os sentimentos inconscientes de seu analista. Nós estamos prontos para exigir que o médico reconheça e domine nele mesmo essa contratransferência. Agora que um maior número de pessoas pratica a psicanálise e discute entre elas suas experiências, nós observamos que todo analista só pode conduzir bem seus tratamentos na medida em que seus próprios complexos e suas resistências interiores lhe permitam. Por isso, nós exigimos que ele comece submetendo-se a uma análise e que não cesse nunca, mesmo quando ele aplica, ele próprio, tratamentos a outrem, de aprofundá-la. Aquele que não conseguir uma semelhante autoanálise agirá bem, renunciando, sem hesitação, a tratar analiticamente os doentes.

– FREUD, S. Perspectives de l’avenir de la thérapie analytique. De la technique psychanalytique. Paris: PUF. 1953. p. 27.

Penso, portanto contradigo

“Contradizer, mesmo que em assuntos ligeiros, é a necessidade suprema da arte hoje”.

Comecei a ler Ferdydurke, do polonês Witold Gombrowicz. É a história de um escritor de 30 anos que acorda numa terça-feira e vê que voltou a ser um menino, após ser raptado por seu professor. Mas não se deixem enganar pela simplicidade deste mote: Ferdydurke é um livro cheio de luxúria, e seu assunto é o desejo.
De qualquer forma, não estou aqui para falar do livro. Talvez tenha algo a dizer quando terminá-lo, mas isso não acontecerá tão cedo. Escrevo para deixar registrada a frase aí de cima, do autor, como um lembrete para mim mesmo. Contradizer é a necessidade suprema da arte hoje… Gombrowicz disse isso em 1937, mas penso que essa afirmação não poderia ser mais atual e necessária.
Não sei se em 1969, quando da sua morte, ele ainda pensava assim, mas o fato é que vivemos já há bastante tempo um processo de pasteurização dos gostos, das ideologias, das idéias e dos ideais. Cada um de nós vive algemado pelas próprias certezas, vestindo a confortável e quentinha camisa de força das nossas utopias (ou da falta delas), tendo como refúgio fácil as dicotomias maniqueístas: nós x eles; pessoas de bem x pessoas do mal; revolucionários x reacionários etc.
É seguro viver assim. Já que o processo de definir-se a partir de si mesmo é doloroso e incerto, buscamos essa resposta (ou fugimos dela) através do antagonismo: “não admito saber quem verdadeiramente sou, mas sei que o outro que pensa diferente de mim está errado”. Escutar um interlocutor antagônico coloca este delicado equilíbrio em risco, já que pode nos fazer olhar exatamente para aquilo que não queremos ver (simplificando bastante). A saída é atropelar a ousadia deste outro que nos interpela com nossos carros-patrulha ideológicos, políticos, estéticos etc.
O resultado é um mundo estagnado, onde ninguém suporta ser desafiado, “mesmo que em assuntos ligeiros”, e onde as vozes antagônicas devem ser caladas em nome do politicamente correto ou do que quer que seja. Justamente quando as possibilidades da comunicação são extremas, o que é transmitido torna-se homogêneo.
Neste contexto, contradizer nunca foi tão necessário, e não é pra ser educadamente não! Que a arte nos estapeie a cara e deixe-nos a marca de seus cinco dedos, ardendo, porque viver aprisionado nessa ridícula e alienante zona de conforto é pior que a morte. Viva o do contra!

O adolescente delinqüente

Minha amiga Lady Rasta me pergunta por que sou contra a redução do limite para a maioridade penal. Trata-se de assunto delicado e complexo, que fica ainda mais complicado quando de fatos como esse, ocorrido com o assassino do menino João Hélio. A indignação popular e o clamor por justiça são mais do que justificados, quando tudo o que queremos é que o ato sórdido do assassino seja devidamente vingado.
É necessário sim que se questione com seriedade quais os limites de ação da justiça em casos assim, mas é ao mesmo tempo perigoso, no calor dos fatos, optar por ações drásticas sem pensar as conseqüências a médio e longo prazo. Apesar dos Champinhas e similares, será mesmo que mais prisões (nos moldes das nossas prisões) para mais jovens seriam mesmo uma solução efetiva para a delinqüência desses destes? Existem vários bons argumentos de ambos os lados, mas me posiciono contra a redução do limite por uma questão de coerência teórica e postura profissional. A melhor maneira de elucidar minha posição, por enquanto, é reproduzindo aqui o longo trecho abaixo (me desculpem):

Voltemos à motivação primeira do adolescente: trata-se de conseguir um reconhecimento para o qual ninguém sabe lhe dizer quais são as provas, qual é o ritual iniciatório necessário. E, por consequência, de colocar fim a uma moratória que lhe é imposta logo quando se sente maduro, forte e potencialmente adulto.
O adolescente é rejeitado pela sociedade dos adultos, que respondem ao seu pedido de admissão com uma bola preta na urna. Ora, quando um pedido não encontra uma palavra que no mínimo reconheça sua relevância, normalmente seu autor levanta a voz. Numa progressão linear, grita, quebra vidros e pratos, coloca fogo na casa e pode até se matar para ser levado a sério. Ou seja, ele tenta impor pela força, ou mesmo pela violência, o que aparentemente não é ouvido.
[...] “Delinqüência” não é uma palavra excessiva, embora de fato pouquíssimos adolescentes se tornem propriamente delinqüentes. Mas existe uma parceria de adolescência com delinqüência, porque o adolescente, por não ser reconhecido dentro do pacto social, tentará ser reconhecido “fora” ou contra ele – ou, o que dá na mesma, no pacto alternativo do grupo.
Ele constituirá um novo pacto entre adolescentes, com claras regras de reconhecimento mútuo. Essas regras sempre estarão deliberadamente em ruptura, mais ou menos declarada, com o pacto social.
Dentro ou fora da prática gregária, os jovens não desistirão de tentar suscitar a atenção e o reconhecimento dos adultos. O grupo que eles vierem a constituir seguirá um modelo de ação que deverá transgredir o pacto social, já que continua viva a esperança de merecer, por essa transgressão, a atenção dos adultos.
[...] Paradoxo e dificuldade da relação entre gerações: os adolescentes transgridem – até gravemente – não para burlar a lei, não na esperança de escapar das conseqüências de seus atos, mas, ao contrário, para excitá-la, para que a repressão corra atrás deles e assim os reconheça como pares dos adultos, ou melhor, como as partes escuras e esquecidas dos adultos. [grifos meus]
[...] Nessa condição, torna-se impossível para os adultos escolher uma estratégia correta entre tolerância e repressão. Por exemplo, é um perigo deixar a porta aberta (como está acontecendo cada vez em mais países) para que o tribunal decida se jovens culpados de crimes graves devem ser perseguidos como menores ou como adultos. À vista disso, como o jovem resistiria à tentação de fazer algo que seja grave a ponto de forçar o tribunal a julgá-lo como adulto – que é o que ele pede desde sempre? Se for julgado e condenado como adulto, isso será a demonstração do fato de que os adultos só ouvem a linguagem do crime mais detestável e de que essa linguagem funciona.
Tolerar não é uma opção, visto que o jovem atua justamente para levantar a repressão. A tolerância só o forçará a atuar com mais violência.

Contardo Calligaris, em “A Adolescência” [pp. 39-42, São Paulo, Publifolha, 2000].
Ora, se tolerar faz com que o jovem busque a repressão e reprimir com mais intensidade é dar a ele este “prêmio”, parece haver mesmo um impasse que não será resolvido delimitando por força de lei (com letra minúscula mesmo) os limites da maioridade. A resolução dessa questão passa pelo questionamento da “moratória” imposta aos jovens pelos adultos (assunto do livro do Calligaris, recomendo) e pela revisão do papel dos jovens no pacto social. Precisamos sim encontrar maneiras de proteger a sociedade de indivíduos como os assassinos citados, mas acredito sinceramente que a alteração dos limites de maioridade seja uma proposta simplória que nem de perto toca no que está realmente envolvido nessa questão. Funciona mais para aplacar nossa ânsia por vingança e “justiça” do que para evitar que situações absurdas assim se repitam.

A graça de Danilo Gentili

O humorista Danilo Gentili escreveu um belíssimo texto em que critica a relação da nossa sociedade com o humor. Ele levanta uma série de questões importantes que não vou retomar, até porque boa parte do que ele escreveu já foi discutido por outras pessoas durante toda a semana. É melhor você clicar no link e depois voltar aqui.
Trata-se de um texto certeiro, a despeito do péssimo humorista que ele realmente é, e o que chama minha atenção é o quanto a “qualidade” de seu trabalho foi usada durante a semana como desculpa para desqualificar o teor de suas reflexões a respeito tanto do ofício de fazer humor quanto de como o público lida com ele. Fico impressionado ao ver pessoas ditas progressistas, “lutadoras por um mundo melhor” e “defensoras da liberdade de expressão” agindo como turba agressiva sempre que surge uma palavra ou expressão que atente contra suas convicções.
Eu, mais do que ninguém, sei que palavras não são inocentes. Não há significado que não seja historicamente construído e que não reflita toda a carga de preconceito e desigualdade das nossa relações, desde o início dos tempos. É mister que cada um saiba do que está falando e saiba o peso do que está dizendo, mas não acredito que toda a gritaria politicamente correta que tenta calar a palavra nos leve a esse nível de compreensão. Muito pelo contrário, e o que está em jogo aqui é maior do que a semântica.
Para ficar nas palavras, costumo dizer que determinados setores de nossa sociedade andam muito amarrados a adjetivos e substantivos, e pouco afeitos ao verbo. A metáfora exemplifica bem o que estou tentando dizer: aquele que não partilha de minhas convicções políticas ou de minha ideologia é “golpista” ou “reaça”. O dedo em riste aponta para a cara daquele que ousa pensar diferente, e qualquer possibilidade de ação morre. O movimento dialético proveniente do debate, que poderia até permitir a construção de um novo saber e de novas interações, é substituído pela inércia estanque e maniqueísta do “nós x eles”, do “pessoas de bem x o mal”.
Mas já estou tergiversando. Voltando ao humor, eu também gostaria de um mundo em que certas expressões não sejam mais usadas e em que certas piadas não sejam mais feitas, só não acredito que a censura raivosa seja o caminho para tanto. Fico preocupado demais ao ver o quanto as palavras “controle” e “regulamentação” estão na moda ultimamente, e como muitos de nós agimos como verdadeiras milícias, no afã de calar o outro que ousa verbalizar sentimentos, conflitos e mesmo preconceitos. Será mesmo que calar o “humorista covarde” na base da força e do controle é realmente um passo em direção à resolução de nossos conflitos? Ou será que não é mais uma maneira de fazer com que permaneçam vivos e fortalecidos em seu espaço de não dito?
O humor pode sim perpetuar preconceitos, como boa parte de nossas ações. E isso continuará acontecendo se não houver reflexão. Que a significação cruel de tantas expressões com as quais temos que conviver seja desconstruída pela força do argumento, e não da censura. Digo isso porque o humor também é denúncia e diagnóstico de nossas mazelas. Ao humorista cabe um papel importante, que é o de escrever a crônica nem sempre bem vinda de nossos costumes e de nosso momento histórico. O humorista existe também para fazer cair máscaras e para enfiar o dedo na ferida da hipocrisia. O riso que, dizem, é a arma dos covardes, pode ser também a arma daqueles que têm coragem de dizer sobre aquilo que preferimos calar. E vocês não fazem idéia do quanto isso é importante.
O que muitos não percebem, seja por inocência ou por má-fé, é que numa sociedade marcada pelo conflito e pela desigualdade, aquilo que se cala é tão ou mais grave do que aquilo que é dito, e nada é mais “reaça” e útil ao establishment que calar as incômodas verdades que o humor costuma denunciar. Essa hipersensibilidade ao humor, tão característica de nossa sociedade, orna muito melhor com regimes totalitários. Acreditem, um mundo em que os humoristas são livres para pecar pelo excesso é infinitamente melhor do que aquele em que só fazem as piadas que não nos ofendem.

A ameaça pagã

O trecho abaixo é a sinopse de um livro lançado pela editora oficial de uma igreja de denominação protestante no Brasil. Os grifos são meus:

Em apenas uma geração o Ocidente se tornou a incubadora do paganismo reavivado. Por trás da surpreendente diversidade da cultura pró-escolha – aborto, direitos, homossexualidade, feminismo, nova espiritualidade, adoração de deuses, feitiçaria – encontra-se uma espiritualidade pagã coerente, assumindo controle absoluto e intolerante a qualquer verdade que não seja a sua.

A contradição evidenciada pelos trechos grifados é obviamente absurda, mas não poderia ser mais humana: o preconceituoso, ao não ter a “sua verdade” aceita, acusa o diferente de intolerante, num exemplo clichê do mecanismo de projeção. Em alguns casos chega a ser cômico, mas não é o que acontece quando tal obra é reverenciada como sendo científica, e encontrada (em vários exemplares) na loja do colégio ligado à citada igreja.
O livro está na estante dos livros didáticos, e é oferecido aos alunos do ensino médio pelos funcionários da loja. Ser contra a mistura de religião com educação é apenas uma postura ideológica minha, reconheço, e é bem provável que os pais desses alunos não só aceitem como esperem que seus filhos entrem em contato com este tipo de material.
Mas o que aparece neste parágrafo (e o conteúdo da obra é bem pior) está além de questões religiosas. Culpar esta igreja e sua doutrina é a resposta mais rápida e direta, mas incompleta. É muito mais grave que isso: trata-se da incapacidade que todos nós temos, em maior ou menor grau, de lidar com o outro e de aceitar as diferenças. Pior, o preconceito é reproduzido e ensinado com ares de saber irrefutável, tendo a religião e a educação como veículos.
Este exemplo extremo me deixa pensando nas atitudes preconceituosas, aparentemente inocentes, que mesmo o mais “moderno e mente aberta” de nós é capaz de ter. A concentração de absurdos e besteiras presentes no parágrafo acima (um novo recorde mundial, provavelmente) nos leva a dizer que “esses religiosos são mesmo ridículos”, mas é preciso cuidado para não sermos nós mesmos os ridículos, e para não transmitir a estupidez a nossos filhos e alunos.
Ainda não acredita que alguém possa ter escrito o trecho acima? Eu posso provar:
A ameaça do fanatismo
JONES, Peter. A ameaça pagã: velhas heresias para uma nova era. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.


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